Trilho dos Pescadores // dia 4

zambujeira do mar > odeceixe azenha do mar

dói-me os pés, dói-me músculos nas pernas que não sabia que os tinha.. mas quero tanto continuaaaaaaaaar. vá lá corpinho, deixa-me terminar, estou tão perto do fim que até lhe consigo sentir o sabor!!

saímos da cama as 11 da manhã. o descanso estava a saber demasiado bem, mas a hora do check out aproximava-se.

tomamos o pequeno-almoço na pastelaria ao lado do alojamento e depois estivemos uns minutos sentados num banco de jardim, a absorver os raios de sol que iam espreitando por entre as nuvens. gosto *tanto* daquele sítio, tem uma luz tão bonita. e no inverno, com poucos turistas e pouca confusão está-se mesmo bem

ainda sem saber bem como ia ser a nossa vida, mais uma vez consultei os horários dos autocarros.. um bocado a contragosto, não era realmente aquilo que eu queria. o homem estava a rasca do joelho, e eu mal dos tendões, mas naquele momento doía-me mais a alma que outra coisa qualquer.. saber-me ali tão próxima de cumprir o meu desafio, e a ideia de ter que parar por ali simplesmente não encaixava...

o dia estava agradável, haviam praias e paisagens lindas à espera da nossa visita. e a azenha ficava a meio do caminho.. opá.. opá..

eeeeeeeeeee cá vamos nós!!

alteirinhos

seguimos a um ritmo confortável (que é como quem diz, demasiado lento para conseguirmos chegar a odeceixe naquele dia), mas como o gráfico de elevação daquela etapa era um bocado assustador, com várias subidas e descidas bastante íngremes, não podíamos facilitar. se não, tínhamos que desistir antes de chegar a azenha, no brejão.

lá fomos, todos felizes todos contentes, pelas falésias, dunas, e mata fora. e praias, muitas praias!

zambujeira,

até ao meu regresso

alteirinhos,

alteirinhos

carvalhal da rocha,

carvalhal

carvalhal

machado,

machado

amália,

amália

o mar andou a fazer das suas e as praias estavam desareadas ou com com pouca areia. esperemos que até ao verão, o mar a traga de volta.

destas todas só não conhecíamos a da amália. sabíamos que não era de fácil acesso e não demorou muito constatarmos isso mesmo. e depois da vereda, as dezenas de degraus até lá abaixo à praia? dasssse... vá lá que não tivemos que descer aquilo tudo...

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amália

o percurso entre a praia do machado até à azenha é dos mais desafiantes de todo o trilho. muito desnível, muitos riachos, lama, vegetação cerrada. acho que foi a única parte em que dei graças por ter botas e não sapatos lol ora enfiava as patas na lama, ora num riacho para tirar a lama. andei nesta vida durante uns quantos kms.

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demorámos quase 5 horas a chegar à azenha, já mal conseguia andar e estava pronta para enfardar mais marisco.. por causa do desgaste das articulações.. isso :D

o marido interceptou o casal que vinha atrás de nós desde a amália. os únicos que vimos naquele dia, provavelmente por já termos começado tão tarde. àquela hora já devia estar tudo em odeceixe a descansar a pernas numa esplanada qualquer.

ele era alemão, ela sueca. vinham com alojamento próprio às costas, portanto ainda iam mais na calmas que nós. dormir no meio das dunas, isso sim, é liberdade. mas não os invejo.. a não ser que trouxesse um sherpa atrás para me carregar com a tralha toda lol

trazíamos quase 80km acumulados nas pernas, se a coisa morresse por ali, já não era mau de todo. significava que tínhamos concluído praí 90% do trilho. os 8 que faltavam para terminar, podiam ficar para outra ocasião.. uma pena, mas não dava para mais.

havia um autocarro para odeceixe dali a pouco, mas enquanto estávamos à espera, ofereceram-nos boleia para o nosso destino. fixe!

e mal chegámos a odeceixe, quem é que se cruza connosco? as nossas "vizinhas" suecas! estavam outra vez alojadas no mesmo sitio que nós he he he

o sítio que escolhemos para a última pernoita foi em jeito de recompensa pelo desafio, as casas do moinho. descobrimos aquela preciosidade há uns anos atrás, num passeio nocturno e estávamos desde então à espera de uma desculpa para ficar lá. e esta era perfeita!

não ficámos desiludidos, não senhora!

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dos quartos de hotel (ou B&B neste caso) mais bonitos e confortáveis onde já dormi, sem dúvida!

como tínhamos almoçado tarde, fomos só morder qualquer coisa a um dos poucos sítios que estavam abertos na vila, um snack-bar com um ar ecléctico, mas bastante acolhedor..

e estava a passar the doors (esta banda tem um efeito muito estranho em mim e o ambiente era perfeito para ouvi-los).. e a tosta de queijo com tomate e oregãos estava deliciosa… e no rescaldo de 4 dias a passar as passas do al..entejo, onde tudo tinha acabado por correr da melhor forma possível, e por toda a beleza dos sítios por onde passámos, e a simpatia das pessoas com quem nos cruzámos… não consegui conter uma lágrimazinha de emoção :')

Engraçadinho

a tua primeira opção de autocarro só passa dali a 17 minutos. a segunda opção, a 12 minutos. a terceira, a 4 minutos. não gostas, mas segues nessa para não perderes mais tempo. chegas à estação de metro, comboio parado, carruagens a abarrotar. linha interrompida por motivos alheios, previsão de restabelecimento do serviço dali a 15 minutos. desistes e vais ver se tens autocarros. entretanto ouves o metro a arrancar. PQP. perdes um possível autocarro que estava a sair naquele momento, o próximo é só dali a 8 minutos. sobes e vês o horário dos comboios, parte um dali a 3 minutos, boa. enganas-te com o número da linha, o comboio está do outro lado da plataforma. desces. corres. sobes. o comboio parte sem ti. voltas novamente ao metro, que entretanto já esta a funcionar.

a tua reacção perante este imbróglio épico? ris-te à parva, claro. é o universo a pregar-te uma partida de 1 abril, não há outra explicação!

Para variar

IRS entregue no primeiro dia, em vez do último \m/

1 de Abril de 2015, às 00:47link do post comentar ver comentários (2)

Trilho dos Pescadores // dia 3

almograve > zambujeira do mar

a primeira coisa que fiz mal abri os olhos, foi pegar no telemóvel ver que autocarros havia que me levassem dali até próxima etapa. queria lá saber.. não aguento outra tareia daquelas, ainda por cima a maior delas todas.. argh!

arrastei-me para fora da cama para irmos tomar o pequeno-almoço, tinha umas olheiras tão fundas que roçavam no chão. pelo caminho da cantina, encontro imediato de 3º grau com um amigo (olá rui! se leres isto dá sinal de vida :D) emigrado que não via há anos. sabia que ele andava com intenções de fazer uma visita à pátria, mas jamais sonhava encontrá-lo ali. ele há coincidências do caneco!

na cantina tivemos bastante tempo na conversa com a funcionária. falámos de muita coisa, da experiência que estavamos a ter com o trilho, da praia secreta dos locais, das enchentes do verão, da juventude desmiolada, e também sobre a etapa do dia, que era das mais bonitas, pela duna vermelha e não só.

e eu ganhar um sentimento de culpa enorme por querer deixá-la para outra ocasião. a duna vermelha isa, tu queres tanto conhecer a duna vermelha.. vá lá corpinho fofinho, colabora com a vontade tua ama.. por favor!!

…e mas mais uma vez fui buscar forças nem sei onde (mas asseguro que nenhuma alma foi prometida ao demo em troca de um punhado de energia loll), calcei a botas diabólicas e meti a mochila às costas. a promessa era de fazer apenas metade do caminho, e em cavaleiro apanharíamos um táxi até à zambujeira.. mais que esses 10km recusava-me a andar.

foi a etapa que começamos mais cedo, por volta das dez e meia da manhã. de caminho passamos por uma pequena mercearia, onde nos abastecemos apenas de água. o almoço seria em cavaleiro, num restaurante muito bem recomendado.

fomos nas calmas.. mesmo nas calmas. as paisagens ali são obscenamente fantásticas e somos obrigados a pausar para dar-lhes a atenção que merecem. de facto, tinha sido uma pena perder aquilo.

um dos pormenores que mais estava a gostar no trilho eram as subtis diferenças na vegetação, na cor e textura da areia, e no recorte das arribas, à medida que íamos progredindo. só isso era suficiente para querer levar aquela provação até ao fim.

apanhámos um grupo de 3 senhoras duas delas já bastante entradotas que vinham no nosso encalço. tinham o dobro da minha idade e dobro da minha genica. que vergonha pá, que vergonha!

como nos demoramos às voltas pela duna, o tal grupo apanhou-nos e o homem ainda se ofereceu para lhes tirar umas fotos e meter conversa. e guess what? suecas. por falar em suecas não vimos as nossas "vizinhas" nesse dia.

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o homem ia-se a passar com uns cogumelos de aspecto sinistro que íamos encontrando ao longo do caminho, e sempre que via um, parava para fotografá-lo. lembro-me, quando era pequena e ia prá horta com os meus avôs, de andar ao pontapé com cogumelos daqueles porque largavam uma nuvem de pó muito engraçada (mais engraçado seria poder voltar a trás no tempo e dar um pontapé em mim mesma, para aprender a deixar a natureza sossegada :P).

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o meu pai acha que são "bufas de velha", o homem diz que são "ovos" de facehugger, eu digo que são os graboids do tremors. se alguém por aí saber o nome técnico e quiser partilhar, fico agradecida :)

cheguei ao cavaleiro com dores horrendas nos pés. apetecia-me atirar as botas pela falésia a baixo como fez a personagem da reese no wild. fónix... mas! contra todas as minhas expectativas, tinha conseguido aguentar-me até lá. not bad.

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restaurante encontrado à primeira graças à pesquisa e aos mapas no telemóvel. isto quando estamos nas couves, todos os centímetros de chão que se conseguir poupar, são preciosos.

pedi lagartos de porco preto e o homem migas com rojões. estava esfomeada e necessitada de comida potente.

isa antes da pratada de lagartos: "depois do almoço chamamos o táxi, ok?"

isa depois da pratada de lagartos, batatas-fritas e uma mousse de chocolate caseira (hey, no campo de batalha luta-se com todas as armas que se consiga deitar as unhas!): "bom, vamos chegar tarde, mas que se lixe.. bora nessa!"

fizemos ali uma certa batota. como já conhecíamos as redondezas do cabo sardão de outras andanças, cortámos 1km ao trilho, indo directos ao farol. à nossa esquerda, a zambujeira aguardava-nos. ali a umas quatro horas. hopefully...

e na segunda parte da etapa o universo curvou-se perante mim e numa voz ribombante de trovão, disse:

"já não posso com as tuas lamentações mais ao raio da areia, toma lá uma estrada de areia terra batida e NEM MAIS UM PIU!"

AH AH AH AH fixeeeeee!

...ou então não : /

foram 12 longos kms, a direito, sem declive, sempre a fazer o mesmo movimento.. às tantas começamos a desejar piso irregular para que os pés e pernas pudessem quebrar aquela monotonia.

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só sei que nesta altura, andar com uma mochila às costas era o menor dos meus males.. putas das botas pá!! e os meus sapatinhos de caminhada tão confortáveis e levezinhos que são, abandonados em casa, sozinhos, num armário escuro. não se faz, não se faz..

até o homem, que até então vinha fresco que nem uma alface, começou-se a queixar com dores no joelho rombo dele. e isso não eram boas notícias.. as paragens começaram a ser mais frequentes para fazer alongamentos a ver se aquilo aguentava até ao fim sem stresses.

mas as vistas.. as vistas valem por todas as dores!

aquela rocha torcida das falésias encanta-me de sobremaneira.. são marcas evidentes da história atribulada do planeta, e das sucessivas transformações ao longo das eras. é incrivel o que está registado ali naqueles rochedos. 

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(as fotos não lhes fazem justiça : / )

e o mar ali a bater incessantemente, os pescadores a arriscar a vida todos os dias naqueles paredões íngremes e escarpados, para irem ao peixinho e ao marisco. é insano. insano!!

depois daquela estopada que já durava há 3 horas, deparamo-nos com um belo dum desafio: descer quase a pique até ao porto de pesca.. para logo de seguida tornar a subir. NÃOOOOOOO..

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quase a chegar ao nosso destino, assistimos a um pôr-de-sol como manda a lei, daqueles que tingem o céu com tons quentes de laranja e rosa, e que nos deixam suspensos perante a perfeição do universo.

adicionar aqui o som do mar.

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chegamos à zambujeira do mar todos estropiados. o homem vinha coxo e a implorar por gelo, eu fascinada por ter a parte de trás dos pés inchada, ali na zona do tendão de aquiles. não sabia tal coisa ser possível sequer. 
doía-me tudo da cintura para baixo.. andava desde há dois dias a sonhar com uma banheira cheia de água quente mas não tivemos essa sorte.

mas hey.. CHEGAMOS À ZAMBUJEIRA. VIVOS!!

ou quase lol


mas isso agora não interessava nada! tínhamos conquistado três das quatro etapas e só isso era suficiente para estar eufórica!


mal cheguei ao quarto meti-me debaixo do chuveiro, e AHHHHHHH TÃO BOM.. depois creme gelado nos joelhos e tendões para ver se acalmam os ânimos. o homem precisava de armas mais pesadas e desceu para xaretar no congelador da cozinha comum. voltou de lá todo contente, com um pack de geleira - as pequenas coisas que nos deixavam radiantes muhahahah


dali ao restaurante onde fomos jantar eram praí 150 metros e foi um suplício atravessá-los. tínhamos os dois com um andar novo e o do homem era tão ridículo que eu já chorava a rir, parecia o asimo :D


engraçado.. bateu-me um apetite tão voraz naquela noite que não conseguia parar de comer. entradas. prato principal. sobremesa..parecia que não via comida há meses!

..ou então era mesmo porque a comida estava deliciosa hi hi hi

eu mereço, eu mereço


o segundo encontro imediato de 3º grau do dia. ter a sensação que conhecia a pessoa que estava na mesa ao lado mas não tinha a certeza. o homem confirmou, uma vizinha que não via desde o verão, até julgava que se tinha pirado, mas não. andava a passear-se pela costa vicentina com os amigos, e ficou chocada quando lhe dissemos que andávamos a fazer o mesmo. a pé! lol


a noite estava fria, e já que a senhora do alojamento tinha acedido a lareira da sala para os seus ilustres hóspedes poderem desfrutar de um serão agradável, aproveitámos. 
estivemos por lá enquanto o homem se abastecia de séries. uma vez que o meu telemóvel estava a ser monopolizado entretive-me a ler uma revista.


entretenimento adquirido, subimos, que eu estava cansada e dolorida e queria fechar a loja. podia ser que uma boa noite de sono me curasse miraculosamente as maleitas :D

Cem??

eu só preciso de uma: açores!!!

    30 de Março de 2015, às 17:41link do post comentar

    Ele há ideias mesmo fixes II

    preciso disto na minha casa!!! 



    são meia-duzia delas para embrulhar, fáxavôr!

    Trilho dos Pescadores // dia 2

    vila nova de milfontes > almograve

    subestimei o trilho dos pescadores. só quero ficar na cama enrolada em posição fetal. dói-me os pés, dói-me as pernas, dói-me as coxas, dói-me os ombros. não tenho forças. quero a minha mãezinha!

    ...eu e a minha mania de me meter em grandes coboiadas sem ter estofo físico para elas. será caso que não aprendo??

    nove da manhã e eu não queria.. aliás.. não conseguia sair da cama. fiz um esforço e fui tomar banho mas depois enfiei-me novamente entre os lençóis. só de pensar naquilo que tinha pela frente até tremia. felizmente, a etapa desse dia era a mais curta de todas, apenas 15km. menos mal.

    o homem acabou por ir buscar o pequeno-almoço e o farnel do dia. uma das grandes vantagens dos hostels, descobrimos nós, é que têm cozinha comum e podemos preparar lá refeições. dá bastante jeito.

    veio da rua a dizer que tinha-se cruzado com duas suecas de mochila às costas, que estavam de saída pró monte. "quê? não me digas que são as suecas que vinham no mesmo expresso que nós? ca fixe!"

    saí da cama, vesti-me e fui-me encher de hidratos de carbono e gordura. vá, let's do this.

    mira

    a etapa começou bem. num ritmo confortável, mas nas calmas, para mim não cair pró lado a meio da coisa :D

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    à nossa frente, lá iam as duas suecas, de SLR em punho a fotografar tudo o que mexia. iam também a cortar mato como gente grande. BATOTEIRAS, pá! :D

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    o trilho estava a ser bastante agradável de percorrer, em terra batida pelo meio da vegetação, composta na sua maioria acácias (sei bem que são invasoras, mas não deixo de gostar delas) e o dia estava fantástico para caminhar.

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    mais ou menos a meio fizemos uma paragem para comer. aquela velocidade íamos chegar bem cedo a almograve, por isso tava-se bem.

    HA HA HA HA querias, não querias?

    TOMA LÁ AREIA!!

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    vá lá que vez em quando alternava com outros tipos de trilho. aquela etapa é bastante diversificada. pastos, praia, matas, falésias, campos de cultivo, regatos e lama para enfiar os pés. não há um momento de monotonia.

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    lá em cima no céu, o cenário começava a mudar.. vinha uma escuridão assustadora no nosso encalço que fazia-me querer avançar mais depressa. só que andar depressa em cima de areia não é assim uma coisa muito fixe e acabei por me cansar desnecessariamente.

    o último terço do percurso foi estupidamente duro por causa da areia.. já não a podia ver à frente.. e eu *amo* areia pá!
    em terra batida estávamos a fazer uma média de 4km/h, assim que pisávamos areia, descia para 3.. com sorte! que havia alturas que parecia que não saiamos do mesmo lugar..

    "por'qué que raio não trouxe eu os sapatos em vez das botas?" era o único pensamento que me ocorria. a falta de experiência é uma coisa tramada.. da próxima vez que for para andar em trilhos de areia, as botas ficam em casa. nem que seja só um mísero km :P

    as únicas gotas de chuva que apanhámos nos cinco dias foram nesta parte do percurso. ainda enfiei o poncho mas quase que não valia a pena, foi mais para justificar o facto de o ter trazido lol

    also, o windguru rula porque disse que ia chover por volta das 3 da tarde e as três da tarde foi quando começou a pingar.

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    entretanto as suecas que pensávamos já terem chegado a almograve com a bisga que levavam, apareceram atrás de nós. tás a ver homem, não sou a única a fazer milhares de paragens pelo caminho para fotografar tudo e mais alguma coisa e atrasar o passeio :D

    estivemos um bocado à conversa com elas (metíamos conversa com quase toda a gente que se cruzava connosco) e depois retomamos a marcha.

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    cheguei à pousada de juventude tão cansada que só me apetecia enfiar na cama e dormir até ao dia seguinte.

    o homem aproveitou para lavar roupa. meteu-se debaixo do chuveiro vestido e ensaboou-se todo, depois usou o aquecedor para secar a roupa. muito desenrascado, este meu homem :D

    a dada altura, reparei na desarrumação que práli ia naquele quarto.. o conteúdo das mochilas espalhado por todo o lado. aquilo era tudo nosso? lol fiquei deveras impressionada pela quantidade de tralha que consegue caber em duas mochilas normalíssimas.

    continuando a sina de milfontes e porto covo, a maioria das tascas estavam fechadas. mas uma homónima minha salvou a coisa! a churrasqueira “isa” estava a bombar. o homem deliciou-se com um belo dum franguinho assado.. já eu não consegui meter praticamente nada no bucho, de tão moída que estava.

    a coisa não podia correr bem no dia seguinte :/

    Trilho dos Pescadores // dia 1

    porto covo > vila nova de milfontes

    acordámos cedo como previsto, e como previsto pelo windguru, o cenário lá fora estava agreste. chuvada e ventania assim pró medonhas.


    as previsões eram que até às 9 da manhã o tempo ia estar bera mas que depois começava a acalmar. então deixámos-nos ficar na ronha, a ver o que acontecia.

    …e não é que às 9 da manhã deixou de chover? ala que se faz tarde!!

    saltámos da cama e fomos à caça de uma mercearia. água, material para as sandes e uma coisa importantíssima que estava em falta e eu não queria começar sem: vaselina!

    depois do farnel aviado, arrumamos a trouxa, despedimo-nos do hostel e fomos tomar o pequeno-almoço. nos entretantos, as nuvens tinham começado a dissipar e o dia começava a ganhar outra graça.

    o homem saiu do snack-bar a dizer que éramos uns tenrinhos, nós a comer queques ao pequeno-almoço e um local a aviar uma bifana carregada em mostarda, acompanhada de um galão (sim, bifana com galão muhahah). aquilo é que devia dar alento prá caminhada!

    por volta das onze iniciamos a nossa jornada. por aquela que é a etapa mais difícil do trilho.. é uma cena tão nossa que se não fosse assim, não tinha piada lol

    siga pa bingo

    mas estava tão contente por finalmente ir fazer aquilo que não queria saber nem do mau tempo, nem da distância, nem da dificuldade, nem da mochila. queria era andar, andar, andar. andar sem pressas, sem horários, sem preocupações.

    le storm

    ilha do pessegueiro à vista

    os primeiros 10km foram feitos na boa, o trilho está muito bem marcado, nem era preciso olhar para o GPS. não deu foi para atravessar a praia dos aivados porque a maré estava altíssima e o mar a modos que pró agressivo.

    tinha avisado o homem que era sensato fazer pausas a cada 5km para descansar as pernas, mas a primeira e única foi aos 12, junto à praia do malhão. já íamos um bocado cansados mas a coisa estava a correr tão bem que nem apetecia parar. ficamos por ali uma hora, enquanto repúnhamos as energias com umas sandochas de queijo e chourição.

    a partir daí começou a tortura da areia a sério. areia. areia. areia a dar c'um pau.

    anda lá com isso pá

    areia, areia, areia

    por outro lado, a paisagem ia começando a ficar cada vez mais imponente, irregular, e selvagem. e linda, tão linda.. o caminho passa rentinho à falésia, é mesmo preciso ter cuidado nalguns sítios. quando avisam no site que este trilho não é recomendado a pessoas que sofram de vertigens ou tenham medo de alturas, não estão a brincar.

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    aos 16-7km já começava a ficar um bocado rabugenta. os km’s custavam cada vez mais a passar e já me doíam as pernas do esforço que é caminhar pela areia... o que não é muito justo, quer dizer.. farto-me de andar pela praia e nunca tive problemas.. ok, com uma ligeira diferença, é sempre a pé descalço.. e sem tanto peso em cima :/

    acho que se não fossem as canas que tinha deitado a mão logo à saída de porto covo, tinha ficado práli encostada a uma moita, à espera que a brigada de socorro me viesse resgatar, de helicóptero ou moto 4 artilhada ou assim :D bom, se tinha dúvidas em relação a comprar ou não bastões de caminhada, deixei de ter!

    por falar em descalço.. os dois ali a deitar os bofes, quando passa por nós um tipo a correr descalço, em calções e tronco nú, com o ar mais feliz do mundo. não sei o que é que ele andou a tomar, mas naquele momento não me importava de ter um pouco do mesmo :D

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    algo que acho bastante curioso quando se caminha: não se nota o tempo a passar. vamos andado, e andado e andando e nem damos por ele. não chateia nem aborrece. demos por nós e seis horas de caminho já tinham passado. anyway, com distracções destas, quem é que está preocupado com as horas mesmo?

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    aos 20km aquilo já estava ser uma tortura, mas pelo menos já se avistavam casas lá ao fundo. já não faltava tudo.. mas às tantas precisei de ter uma conversa séria com o meu corpo:

    "oh meu amigo, mékié.. há malta que *corre* a distância que eu te estou a impingir, numa fracção do tempo que estás a levar.. aliás, há malta que corre o dobro e mesmo assim em menos tempo.. pior ainda, há malta que atravessa a madeira a *correr*, consegues imaginar tal coisa? ganha mazé vergonha pá e pára de te lamentar, que isto não é nada. NADA.. ouviste? e aquelas pessoas que vão pás montanhas com 4x mais peso às costas, hem? yada yada yada..."

    milfontes cada vez mais à vista

    aos 22km alcançávamos finalmente vila nova de milfontes. já vinha completamente derreada.. agora, o mais giro (NOT!!) foi quando me apercebi, que o hostel que escolhemos ficava no outro extremo da vila.. mais 1,5km e tal a juntar àqueles 22 já me pesavam no corpo. ARGH!!

    foi também por esta altura que comecei a sentir um ligeiro desconforto no calcanhar esquerdo. como sou bem mandada, parei logo para investigar o assunto. uma pequena bolhita, a dar o seu ar de graça.. na única parte do pé onde não tinha besuntado vaselina.. 

    logo no primeiro dia.. sim senhora!

    saquei das botas e das meias, arregacei as calças e enfiei as havaianas nos pés e lá fui eu. naquele momento prometi a mim mesma que nunca mais iria gozar com o homem por levar sempre as havaianas atrás quando sai de casa. o alivio que aquilo me proporcionou foi brutal!!

    já custava a levantar os pés do chão quando o senhor do hostel nos apresentou ao quarto. só queria era tomar banho e cair na cama.

    o quarto era pequeno mas *bastante* agradável, again, isto dos hostels estava a revelar-se numa excelente opção. mas logo reúno isso tudo num post mais à frente, acho que merecem que lhes faça publicidade à borla :)

    jantamos num sitio novo (pelo menos para nós). queríamos experimentar a famosa pizzaria de milfontes mas como estava fechada, seguimos a recomendação do nosso anfitrião, e fomos ao pátio alentejano. nada mau, é o que tenho a dizer. uma dose dá na boa para duas pessoas, especialmente se uma delas está com pouco apetite porque teve um dia demasiado cansativo. ou então foi mesmo porque sorveu uma pratada sopa de feijão e espinafres deliciosa de entrada hi hi hi

    de regresso ao quartel general, fomos até à cozinha/sala de estar e enquanto bebemos um cházito, o homem sacou o entretenimento daquela noite. não vi nem metade, que assim que bati com os costados na cama, não demorei nem 10 minutos a adormecer.

    Trilho dos Pescadores // dia 0

    a mochila era a mãe das minhas preocupações e o recheio foi afinado ao pormenor, não queria carregar mais do que 5kg às costas. normalmente ando com metade disso e já me custa.

    não levava praticamente roupa nenhuma, apenas dois pares de leggings, uma blusa de manga comprida e três de manga curta (duas para caminhar, uma para dormir), e meia dúzia de peças de roupa interior. o resto ia logo vestido, as calças de caminhada, outra blusa de manga comprida e o casaco polar.

    corta-vento, poncho prá chuva, chapéu, gorro, luvas, um par de havaianas, e a bolsa de toilete compunham o resto da carga base. com dois litros de água ficava no limite. uma monstruosidade mas não dava para levar menos (ou era o que eu pensava).

    o homem para além da roupa e chinelos acartava com as electrónicas (GPS, carregador dos telemóveis, pilhas, lanterna), medicamentos e algum material de primeiros socorros, toalhitas, um saco de biscoitos e outro de frutos secos que foram logo de casa. a mochila dele ainda era mais pequena que a minha, não sei como é que ele conseguiu enfiar tanta coisa lá dentro lol

    saímos de casa às quatro da tarde, e às oito da noite estávamos a sair do expresso que nos levou até ao ponto de partida.

    não andava de expresso há mais de 10 anos e não tinha saudades nenhumas.. três horas para fazer aquilo que levo no máximo 1h40m.. dassssse! mas pronto, era a única opção directa que havia para lá. e já vais com sorte!

    em porto covo ficamos alojados num hostel muito fixe, onde o proprietário nos deu umas dicas valiosas para cortar uns km’s ao trilho (e que eu na altura achava que não ia precisar AH AH AH) e sítios porreiros para comer. avisou-nos também que o tempo não ia estar particularmente fantástico nos próximos dias, mas essa parte já eu sabia.

    depois de acomodados partimos em busca de jantar. rapidamente descobrimos que segunda-feira é um mau dia para aterrar em porto covo.. estava tudo fechado, apenas uma pizzaria aberta a servir as poucas pessoas que por ali andavam. will do!

    não tardamos muito a ir prá cama, que o dia seguinte era para começar bem cedo.

    aliás, o maior desafio para os dias que se seguiam era só um: acordar a horas decentes para nos fazermos ao caminho sem pressas. tipo, começar por volta das 9 da manhã.. AH AH AH AH que piadão!

    o homem ainda se entreteve a sacar uns torresmos no meu telemóvel para vermos antes de dormir, que isto de se viajar leve não significa que não se consiga ter alguns luxos :D

    Lost in… Trilho dos Pescadores!

    quando descobri que andavam a marcar trilhos na orla da costa vicentina fiquei excitadíssima com a ideia de se poder palmilhar aquela zona toda por ali a baixo (ou a cima) rente ao mar, sem stresses. a minha humilde vénia a quem se lembrou de fazer isto.
    é que se caminhar já é a actividade perfeita para espairecer, caminhar junto das mais belas paisagens costeiras que temos no nosso pedaço, é pura e simplesmente arrebatador.

    conhecemos o eixo porto covo-odeceixe de trás prá frente e de frente para trás. já fizemos praia ou geocaching em muitos dos sítios por onde a rota passa, só faltava mesmo conhecer aquilo que está pelo meio e que normalmente não está tão acessível.. e para isso só mesmo agarrando numa mochila e dar corda aos sapatos. não que isso fosse um problema :D

    o problema era eu querer fazer o trilho de uma assentada só (de loucos, tendo em conta que somos caminhantes de "fim-de-semana", sem experiência de vários dias seguidos), algo que requer uma certa logística. arranjar uma data; garantir que o alojamento fica bem marcado, de acordo com as etapas; encontrar a melhor forma de nos metermos lá por transportes; transportes entre etapas pró caso de ser preciso; pensar na bagagem e mentalizar-me que teria que andar de mochila às costas o dia inteiro. só assim para começar.

    claro que nada disto demovia o meu entusiasmo, antes pelo contrario, só o aumentava. era uma espécie de desafio, algo que tinha que fazer para saber se era capaz.

    demorou uns anitos a concretizar-se mas finalmente aconteceu. a meteorologia parecia querer colaborar e não haviam outros planos no horizonte.

    só um pequenino, muito insignificante detalhe: estava há 6 meses sem mexer o cú e meti-me naquela que foi a maior estopada que tenho memória:

     

    5 dias*.  88km. a pé. de mochila às costas.

     

    ...OUCH! 

    * era suposto serem 4 mas fizemos batota lol

    'Le me

    tem idade suficiente para ter juízo, embora nem sempre pareça. algarvia desertora, plantou-se algures na capital, e vive há uma eternidade com um gajo que conheceu pelo mirc.

    no início da vida adulta foi possuída pelo espírito da internet e entregou-lhe o corpo a alma de mão beijada. é geek até à raiz do último cabelo e orgulha-se disso.

    offline gosta muito de passear por aí, tirar fotografias, ver séries e filmes, e yada yada, yada... é ler o blog ;)

    101 coisas em 1001 dias - parte III

    faltam 42% done

    'Le liwl

    era uma vez um blog cor-de-rosa que nasceu na manhã de 15 de janeiro, no longínquo ano de 2003.

    muitas são as fases pelas quais tem passado, ao sabor dos humores da sua autora.
    a versão actual levou tempo a cozinhar mas ficou awesome toda cheia de modernices: web fonts, svgs, media queries, e css3. aviso já que os browsers antigos não vão achar piada nenhuma :D

    para os mais curiosos, aqui ficam screenshots das versões anteriores: #10 #9 #8 #6 #5

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