Gerês // dia 3

chegou finalmente o dia de caminhar YAY!!

 

eu estava no gerês, eu ia subir à mina dos carris. com ou sem guia, fim da discussão!
com as minhas pernas e o homem em melhores condições, fomos atacar um dos pontos mais emblemáticos da serra.

voltámos a utilizar o atalho espanhol e aterrámos na portela do homem *muito* mas *muito* mais tarde do que o planeado. para quem queria fazer-se ao monte no máximo até às 10 da manhã, era 1 da tarde quando começámos...

 

1 da tarde!

 

malucos de merda... aquilo não podia correr bem. anyway, adiante que se faz tarde - literalmente!

 

ora o primeiro km e meio já nós conhecíamos, a partir dali foi rumo ao desconhecido. o caminho começou a piorar gradualmente e a subida era cada vez mais acentuada. começava a morder. 

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levávamos hora e tal de caminho quando nos cruzámos com dois caminheiros que vinham de regresso. dois dedos de conversa e ficámos a saber que aquilo estava uma tristeza. tudo seco e não se viam animais (era disso que eles andavam atrás, para fotografar). perguntámos se faltava muito para a mina, pois não tínhamos gps e não estávamos a controlar as distâncias com precisão (tínhamos apenas uns screenshots do mapa com a visão geral do percurso).

 

"quando chegarem à próxima ponte estão mais ou menos a meio do caminho"

 

whaaaa... eu já estava meia morta e ainda nem metade do caminho tinha feito?? PQP!

lá continuámos. a dada altura o caminho deixou de ser um caminho para se tornar num rio de pedras soltas que dificultava imenso o andar. as pausas eram cada vez mais frequentes para tentar recuperar o folgo.

 

mas a paisagem que íamos descobrindo à medida que subíamos era avassaladora :D

 

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levava duas horas de caminhada quando comecei a ficar convencida de que não estava fisicamente preparada para aquilo, e devia desistir antes que começasse a sentir-me mal. não queria o homem a ter que carregar comigo monte abaixo por aquele caminho horroroso. 

 

às três e meia da tarde deu-se a derradeira paragem. pela espécie de mapa que tínhamos dava para perceber que ainda faltava cerca de um terço do percurso, que àquele ritmo era coisa para levar quase uma hora.. e sem esquecer que ainda tínhamos que regressar..

 

quis desistir.

 

tava completamente exausta, não tinha folgo nem forças para continuar. sentia-me incapaz de subir 1km, quanto mais 3.. o marido ainda me perguntou se tinha mesmo a certeza que não conseguia, que já sabia que eu ia ficar toda picada por ter desistido.

mas aquilo há muito que tinha deixado de ser divertido, e como estava a demorar mais que o previsto. corríamos o sério risco de ter que descer o vale praticamente às escuras, o que seria uma grande estupidez da nossa parte.

 

estivemos por ali mais um bocado a descansar e depois voltamos para trás... 6km de pedras soltas para descer.. joy!

 

entretanto topámos umas cabras montanhesas de olho em nós, lá bem no alto da montanha!

cabras 

..e para baixo os santos nem por isso ajudaram. o ritmo até podia ser mais acelerado, mas a corrente de pedras era bem mais perigosa, era preciso ter atenção redobrada onde púnhamos os pés. inevitavelmente, os joelhos e os tornozelos começaram a ressentir-se. eu, que não costumo ter problemas nesse departamento, já vinha manca.

 

sair dali sem um entorse foi quase um milagre!

 

parámos a cerca de 2km do fim, para descansar numas piscinas naturais providenciadas pelo leito do rio homem. muito, muito, muito agradáveis.

chillin' 

bom, mas como ainda andámos alguns 12 ou 13 km naquele dia, mesmo sem atingir o objectivo, declaro aquela uma boa caminhada. pelo menos intensa foi.

 

(btw, uma semana depois continuo a achar que tomei a decisão certa em desistir.. sei que há uma coisa chamada adrenalina que faz coisas incríveis.. still, pôr a nossa integridade física em risco por uma teimosia é simplesmente idiota)

 

dali regressámos a pitões, onde chegámos ao entardecer. o marido foi novamente à procura da cache e eu aproveitei para tirar umas fotos da aldeia. depois meti-me no carro e fui estaciona-lo mais acima para apreciar o quadro que tinha diante mim.

 

o anoitecer estava absurdamente bonito. ao azul já escuro do céu misturava-se os últimos tons púrpura e laranja do ocaso e a muralha negra de granito a recortava dramaticamente o horizonte.

 

como estava cansada e as pernas doíam-me, deixei-me ficar no carro e desci os vidros das janelas. estava frescote mas não corria ponta de vento. nada mexia, nem sequer as plantas. a aldeia lá ao fundo estava igualmente imóvel e silenciosa, ouviam-se apenas uns passaritos.. 

 

e naquele instante pareceu que o tempo parou!

 

fui invadida por uma paz de alma tal que não encontro palavras para a descrever.. não conseguia pensar em nada sequer, parecia que estava em transe. um raro momento íntimo entre mim e o universo... 

 

...até que o homem gritou lá do fundo que lhe fosse levar a lanterna que ele tinha encontrado o buraco da cache e arrancou-me daquele estado zen... bastard!

 

voltámos ao restaurante do dia anterior e a ementa mantinha-se: vitela e bacalhau.. ou enchidos.

 

nessa noite jantámos sopa, pão, queijo, presunto e enchidos de pitões, que não me apetecia bacalhau e já não podia mais com vitela he he he

 

e quando estávamos quase a chegar à estalagem, vimos o coitado do monte ao lado do nosso em chamas.. odeio incêndios..