Episódios da vida no campismo I

apesar de ser uma actividade que adoro, compreendo perfeitamente porque razão só a palavra é suficiente para causar suores frios a muita gente.. não é coisa para todos os estômagos, especialmente em época de enchentes.

 

para começar, as vergonhas e os pudores têm que ficar em casa. num parque pejado de campistas, privacidade, nem que seja para dar um peidinho (não que eu tenha problemas em que os oiçam :D) é um conceito que pura e simplesmente, não existe.

 

(e se não conseguem ouvir alguém a mandar uma cagada ruidosa enquanto escovam os dentes, nem vale a pena sequer considerar a ideia, campismo não é para vocês muhahaha) 

 

a boa notícia é que só faz confusão ao principio, depois a malta habitua-se. juro lol

 

srly, ultrapassado o constrangimento inicial, torna-se numa experiência absolutamente libertadora :D por exemplo, uma das coisas que mais gozo me dá quando estou acampada, é pela manhã, quando saio da tenda e vou meio a cambalear em direcção aos balneários, ensonada e ofuscada pelo sol, apesar dos óculos escuros na tromba.

é ver-me a atravessar o parque em calças de pijama e t-shirt largueirona, toda desgrenhada e babada, com um ar completamente ressacado. ninguém liga um piço. pelo caminho cruzo-me com pessoas que ainda estão mais à vontade do que eu, que ainda me dou à chatice de vestir calças. mas agrada-me a naturalidade com que se anda pelo parque, só de t-shirt e cuecas ou em pelota pelos balneários e se passeiam rolos de papel higiénico caçados no sovaco.

 

also, podermos andar uma semana inteira sempre com a mesma roupa que ninguém liga :D

 

adiante!

 

tenho plena noção que acampar em pleno agosto é tramado - gente aos magotes, confusão, filas*, barulho, etc - ainda assim decidi arriscar. se se tornasse insuportável tinha bom remédio.

 

o parque eleito para estas férias foi o de s. miguel, a dois passos de odeceixe. a destacar, a sua localização, sombra fornecida por pinheiros, piso macio e sem grandes irregularidades, instalações porreiras, estacionamento exterior enorme, e o esquema de pulseiras à festival de música é de longe mais fixe que cartões de acesso. contudo tem alguns pontos menos positivos:

 

é barulhento.

 

fica situado paredes-meias com a N120, uma estrada bastante movimentada dia e noite. e apesar de não ser permitido levar animais, os cães da povoação ali perto encarregam-se de fornecer som ambiente 24 horas por dia.

mas imperdoável foi (é?) mesmo o horário para a recolha da reciclagem. amigos, oito da manhã não é uma boa hora para despejar o vidrão. puta que pariu!

 

é pequeno.

 

não consegue oferecer o isolamento que os campistas anti-sociais como nós procuram. a zona mais afastada da entrada é a zona favorita da malta que leva o carro atrás, algo que eu, para além de não compreender, não aprecio.. quanto muito, leva-se o carro para descarregar o material, depois vai para o estacionamento. suponho que o comodismo fala mais alto..

 

fora isso, é um excelente sitio para assentar e conhecer as redondezas. fica situado próximo de praias lindíssimas, falésias incríveis, restaurantes fabulosos e povo simpático.

 

os parques de campismo são como organismos vivos, sempre em constante metamorfose. como neste o check out é até ao meio-dia, todas as manhãs havia gente a arrumar a trouxa e todas tardes o espaço aparecia reconfigurado. nuns dias tínhamos mais espaço para respirar, noutros távamos cercados por tendas, praticamente coladas à nossa, apesar da regra dos dois metros. 

 

apanha-se todo o tipo de campistas nesta altura. desde os boa-onda aos que não sabem dar férias ao stress - acordávamos muitas vezes com a malta aos berros, entre adultos e crianças e o cagaçal produzido pela preparação do pequeno-almoço (respeito pelos que dormem na tenda ao lado, esquece lá isso..) assim como carros a circular. dormir até tarde é praticamente impossível.. da próxima levo tampões para os ouvidos.

 

e se há coisa que quase todo o campista curte é assadas. no nosso pedaço não faltavam fogareiros.. se me esquecia de tirar a toalha da corda antes de irmos para a praia, quando chegávamos à noitinha, para além de ter a toalha a cheirar a fumeiro, conseguia adivinhar qual tinha sido o jantar da vizinhança.

 

a hora de silêncio é respeitada e o parque mergulha numa tranquilidade (interrompida apenas pelos carros a jardar pela N120 e os cães a ladrar na vizinhaça) quase absoluta. quase… é quando começa a hora do ronco!

 

as nossas passeatas nocturnas pelo parque incluíam breves pausas para apreciar a diversidade sonora dos ressonares que brotavam das tendas. uns pareciam que estavam a serrar lenha, outros pareciam traineiras, outros cavalos a relinchar. aquilo tudo combinado, parecia uma orquestra. ainda proporcionaram umas barrigadas jeitosas de riso - mudo, claro! 

 

eventualmente o universo achou que já tínhamos gozado o suficiente e pregou-nos uma partida. numa das noites em que estávamos completamente cercados por tendas, foi um festival: três roncadores natos, um de cada lado da tenda, e muitos outros ao de longe, cujo ressonar ecoava pelo parque. ora, em termos de ruído, dormir numa tenda ou dormir ao relento é exactamente a mesma coisa. tão, nessa noite adormeci embalada pelo ressonar daquela gente toda. em uníssono, produziam uma sinfonia estranhamente.. agradável LOL

 

.. e por descobrir ficou o misterioso "shhhhhhh" que se ouvia volta e meia depois da meia-noite. perguntámos a um vigilante do parque, que nos disse ser uma coruja.. duvido muito, cá para mim é uma máquina de mandar calar o pessoal muhahahah

 

já recomendava o parque antes e agora depois de experimentar, continuo a recomendar. mas evitem a época alta de agosto, para terem uma estadia mais descontraída e desafogada :)

 

*as filas são a menor das preocupações, basta não utilizar as instalações na hora de maior afluência. por exemplo, pequeno-almoço, nunca antes das 10h, e banhos só depois das 23h (ou então de manhã). it works

 

btw..

 

ò senhores da decathlon, tenho uma sugestão vos para dar!

nesta altura os campings estão a abarrotar de tendas adquiridas nas vossas lojas, diria que 8 em cada 10 são quechua, na sua grande maioria seconds, que abri-las todàgente consegue, mas fechá-las é outra historia.. o meu homem ajudou praí meia-dúzia de clientes vossos.

seria bem lembrado, vocês botarem colaboradores nos parques, para ajudar/ensinar a malta a fechar o raio das tendas (tipo serviço de assistência pós-venda), que aquilo é deveras frustrante.. bem sei que não precisam de publicidade, que o material fala por si, mas seria um golpe de marketing brilhante, hem.. que tal?

24 de Agosto de 2013, às 00:26link do post comentar(2)