Cinquenta tons de outono

andava de apetites a voltar à serra. não preciso de muitas desculpas para dar lá um saltinho, mas por acaso até tinha. entre elas, queria caminhar e a serra tem uma paisagem particularmente bonita nesta altura do ano. só que a meteorologia não parecia muito interessada em colaborar.. depois de semanas a adiar, o caso mudou inesperadamente de figura e parecia que o verão ia regressar por uns dias. não podíamos deixar escapar a oportunidade!

foi difícil de sair de lisboa. estava um trânsito medonho ao fim da tarde de sexta, passei uma hora metida numa fila até conseguir chegar às portagens de alverca, que dor!!! mas mesmo assim consegui chegar a manteigas a tempo de jantar uma bela duma feijoca :D’

a noite estava fresquinha, mas nem lá perto daquelas temperaturas gélidas que apanhamos em dezembro passado, e não havia vestígios de nuvens no céu. o fim-de-semana prometia.

sábado amanheceu quentinho e sem vento. jackpot!!! havia uma ou outra nuvem a dar o seu ar de graça, mas nada que ameaçasse descarregar água em cima da malta. estava perfeito para dar à corda às botas.

seguimos a rota das faias. se há passeio pitoresco em manteigas durante outono, é aquele. há uns anos descobri que o outono é absolutamente maravilhoso na serra, mas naquela ocasião estava frio e chovia, nada convidativo a passar muito tempo fora do carro. desta vez íamos tirar a barriga de misérias!

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a meio do caminho atingimos o ponto mais alto do monte, era obrigatório uma paragem mais demorada para inspirar aquelas paisagens. dali prá frente ia ser muito mais fácil, sempre a descer.. e a percorrer o ex libris do trilho, o bosque das faias.

não tardou muito até que as copas das árvores se começassem a fechar sobre o caminho. muitas nesta altura do ano já estão quase carecas, mas ainda fazem sombra. os raios de luz que ousam trespassar reflectem-se nas folhas caducas das faias e o ambiente ganha um tom quente e acolhedor.. um cenário simplesmente idílico, daqueles que nos deixam a transbordar de felicidade só por estar ali. respirar o ar puro e perfumado da floresta, caminhar sobre aquele suave manto castanho, ouvir a brisa a entrelaçar-se com os ramos das árvores e o canto das aves, e apreciar toda aquela delicada beleza natural foi das melhores experiências que já tive na serra da estrela.


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a minha mãe, que à última da hora decidiu alinhar connosco, ainda que isso significasse ter que palmilhar 12km monte acima e monte abaixo (ok, eu posso ter culpas no cartório, disse-lhe que não eram mais de 7 ou 8 :D), estava assombrada com aquele espectáculo proporcionado pela natureza. mas o que ela gostou mesmo foi dos castanheiros que íamos encontrando pelo caminho. ainda recolheu meio saco de castanhas, que lhe estava a dar pena de as deixar caídas no chão, tão boas que estavam.

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no domingo estava um bocadinho mais fresco, mas igualmente fantástico para passear. demos a volta do costume: estrada do vale glaciar, paragem na fonte paulo luis martins para encher toda e qualquer garrafa de água que existisse no carro, covão da ametade - magnifico em qualquer altura do ano, torre, e penhas douradas. sem grandes pressas.

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já foi demasiado tarde para ver cogumelos, mais ainda encontramos alguns especímenes intactos.

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às sete da tarde despedimo-nos de manteigas e da serra, com a promessa de um regresso para breve. por mais vezes que bata lá com os costados, não consigo cansar-me daquele sítio 

álbum completo da passeata aqui

Lagos a Sag... Ingrina

no primeiro de maio, depois de quase um mês sem torturar esticar os músculos das pernas, decidimos que estava na altura de ir desentorpece-los. como íamos passar o fim-de-semana na terrinha, o plano era lagos até sagres em duas etapas, sexta e sábado a andar, e domingo a descansar.


trilhos não faltam ali, mas não existem percursos marcados para seguir. nada que me preocupasse, toda aquela zona costeira é-me familiar, apesar da paisagem ter mudado *bastante* nos últimos 15 anos.

lagos-salema faz-se muito bem, e por passarmos por uma vila ou praia com apoio a cada meia dúzia de kms, dá para fazer abastecimento ou pausar para comer qualquer coisa, logo não é preciso levar grande carga às costas.

começamos na ponta da piedade, passámos pela praia do porto de mós, praia luz, burgau, praia das cabanas velhas (nunca a tinha visto com tanta areia), e boca do rio, até finalmente alcançarmos a meta do dia, salema.

lagos lagos


porto de mós

o passeio é fantástico. as vistas sobre as águas calmas do atlântico às portas do mediterrâneo são um bálsamo para a alma. em dias sem ponta de vento como aquele, então..

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tem subidas e descidas interessantes, mas nada que nos deixasse de rastos. o maior desafio foi talvez descer a encosta da luz, desde miúda que tinha um fascínio por aquele monte e finalmente satisfiz a curiosidade de desce-lo. da próxima quero subi-lo :D

adorei cada passo que dei por aqueles trilhos. o piso é excelente, não maça os pés nem as pernas e as vistas fazem-nos querer andar sem parar. encontrámos montes de gente por cima daquelas falésias, a curtir a tarde que estava bastante agradável. uns a passear, outros a correr e muitos simplesmente a contemplar.


luz

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fiz os 21km daquele dia sem problemas e quando terminei não estava cansada nem a fantasiar com uma cama onde arrochar (isso veio depois lol), definitivamente faz toda a diferença usar calçado leve e meias adequadas, as forclaz que levei à experiência portaram-se à altura do desafio.

acontece que no sábado fazia tanto calor lá pelo reino dos algarves que não quis arriscar fazer-me ao monte. ainda me dava alguma quebra de tensão que ia obrigar o homem a ter de carregar-me dali para fora às costas. coisas fixes que a idade nos traz.. NOT!

bom, como eu tenho um problema com assuntos inacabados, não quis voltar de lá sem terminar o plano. domingo também era dia.

em contraste, salema-sagres é bem mais desafiante. a primeira metade foi muito agressiva, com subidas e descidas de fazer lembrar uma montanha russa, e a vegetação é bastante densa. mas com paisagens igualmente muito bonitas e bem menos povoadas. passamos por muitas praias quase selvagens, com acessos bastante condicionados que só os mais afoitos arriscam.

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zavial

não esperávamos era gastar tanto tempo e energia nos primeiros 8km. quando chegámos à ingrina, aquela que é a última paragem com apoio até sagres, decidimos, muito relutantemente, dar o dia por terminado. já começava a ficar tarde e estavamos um bocado mal-tratados, não ia dar para fazer tudo naquele dia. não esquecendo o pormenor que ainda ia conduzir 300km nessa noite..

se tivéssemos começado mais cedo, tínhamos ficado duas horas de molho na ingrina e depois seguíamos caminho, que a meta estava tão próxima que até queimava. começar tarde e más horas é um dos nossos grandes problemas, que enquanto não for resolvido, há-de sempre minar-nos os planos. é muito frustrante.
ainda por cima, quando mais ando distâncias longas, mais gosto. 8km já são um passeio no parque, preciso de pelo menos 15 para sentir que a coisa vale a pena. mas para isso é preciso ir com tempo..TEMPO!! argh

mas pronto, não hão-de faltar oportunidades para terminar o desafio..

álbum completo aqui

aviso à navegação: não há percursos marcados ali por cima, apenas uma encruzilhada de trilhos. é perfeitamente possível fazer sem gps, basta ir com alguma atenção por onde se segue (lamber a vista de satélite de um qualquer serviço de mapas da zona ajuda). há zonas que passam muito rente às arribas pelo que é preciso ter cuidado onde se assenta os pés.

Trilho dos Pescadores // Praia do Telheiro

para além das 4 etapas, o trilho dos pescadores tem 5 circuitos complementares: praia de odeceixe, praia da amoreira, ponta da atalaia, pontal da carrapateira e praia do telheiro.

o de odeceixe e da carrapateira para já ficam de fora, pois já fizemos caminhadas por lá (aqui e aqui), onde parte do trilho passa, mas os restantes são para serem feitos. ainda por cima ficam todos a cerca de 30 minutos de casa, não há desculpas!!

vai daí que aproveitamos o fim-de-semana comprido de páscoa, que meteu o habitual salto à terrinha para ir à feira do folar de barão de s. joão, para encaixar o circuito da praia do telheiro. desta vez não fomos sozinhos, a sis alinhou na passeata :)

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vivi naquela zona alguns 12 anos (também devia contar como terrinha lol), batíamos aquilo tudo para ir à praia, à pesca e ao marisco, e mesmo assim, havia ali paisagens que não me lembro de alguma vez as ter visto.. fosga-se, o que uma pessoa perde por andar de carro em vez de dar à sola :P

behold, os paredões mais altos da costa vicentina, alguns com cerca de 100m de altura. a minha paixão por falésias foi parida nestes recantos, há muitos e muitos anos atrás.

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costumávamos frequentar a praia da ponta ruiva, mas estupidamente ainda não conhecia a do telheiro.. de pensar que me fartei de recomendá-la e dar indicações aos cámones de como chegar lá..

é que o trilho que liga estas duas praias, é simplesmente deslumbrante. passa por umas formações rochosas altamente maradas.. às vezes penso que devia ter ido para geóloga, adorava saber interpretar as obras de arte da natureza.

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fizemos um percurso circular, que passou pelo caminho histórico e também pela via algarviana que pelas minhas contas somou cerca de 15km, as pilhas do GPS quinaram a meio do passeio, por isso não ficou totalmente registado.

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o dia estava bom para caminhar, mas como é apanágio do cabo de s. vicente num momento está sol, no outro está tudo inundado em nuvens e vento.. se bem que as nuvens ali são sempre um espectáculo do outro mundo.

end of the world

(a quantidade parva de selfie sticks por aqui.. over 9000!!)


recomendo o passeio, apesar de ser um bocado puxado e parte dele estar marcado apenas com mariolas, faz-se bem. atenção é à meteorologia, que pode enganar.

(e sim, desta vez calcei os sapatos e não as botas lol aprendi a minha lição :D)

Trilho dos Pescadores // notas finais

se gostam de caminhar, o trilho dos pescadores é para vocês. não deve exitir em portugal continental, um percurso junto à costa mais bonito do que este.

relatei a minha experiência de forma sincera, sem omitir as frustrações, nem as dificuldades que encontrei e que tive que superar. tenham em mente, especialmente quem não está habituado, que caminhar cerca de 20km por dia, durante vários dias seguidos dói! mas não é impossível, tudo depende da nossa condição física e psicológica. há que saber ouvir o corpo e estar consciente dos seus limites, mas nem sempre deixá-lo levar a melhor. um desafio mais puxado de vez em quando não há-de fazer-lhe grande mal.

equipamento

a experiência de viajar minimalista superou as minhas expectativas. não senti falta de nada, quanto muito desejei não ter levado algumas coisas. 

é importante que a mochila em si, seja leve, confortável e esteja bem ajustada ao nosso corpo e postura. e carregar apenas o estritamente necessário para as nossas necessidades.

em termos de vestuário, consegue-se fazer o trilho apenas com uma t-shirt de caminhada, uma blusa de manga comprida, umas boas calças, e um corta-vento. roupa leve, e em pouca quantidade. existe sempre a opção de lavá-la e deixar secar durante a noite. meias de fibras sintéticas e calçado leve é o mais importante conselho que posso deixar.

o uso de bastões durante a caminhada dá uma grande ajuda para atravessar os rios de areia, vaselina para os pés para evitar bolhas devido à fricção das meias, protector solar de corpo e lábios/nariz, e optar por várias garrafas de água de 0.5L em vez de 1,5L. pensos para bolhas também pode ser uma boa adição, nunca se sabe e mais vale prevenir que ter que furar a bolha com uma agulha e linha :D

e havaianas. nunca esquecer de enfiar um par de havaianas (ou sucedâneos) na mochila de caminhada.

um bom telemóvel elimina a necessidade de carregar mais tecnologia na caminhada. o meu telemóvel esperto levava os trilhos do percurso; tirou fotos que fazem algumas SLRs encolherem-se a um canto; indicou-me onde tinha reservado alojamento, e onde era o restaurante que eu andava a procura; dava-me a conhecer as condições meteorológicas; mostrava-me os horários dos autocarros; manteve-me em contacto com o mundo, e ainda proporcionou entretenimento, não que precisasse de ajuda para adormecer lol
só não comprou os bilhetes dos transportes por motivos alheios, a rede expressos tinha o serviço de pagamentos em baixo e a CP o pagamento deu erro - o futuro ainda precisa de afinações, mas é um lugar maravilhoso :D

alojamento

decidimos escolher sítios em conta, visto que estávamos apenas de passagem. os hostels/alojamentos locais revelaram-se uma excelente escolha, para além de económicos, têm uma cozinha de apoio aos hóspedes, onde podem preparar refeições. ideal para quem caminha e precisa de aviar farnel.

ahoy hostel, porto covo

a primeira surpresa da viagem. encontra-se muito bem localizado, no centro, perto de tudo, restaurantes, lojas, supermercados. a rota passa à sua porta.

walkers, vila nova de milfontes

a-d-o-r-e-i este hostel, apesar de ter sofrido para chegar lá. não fica perto do centro da vila, mas fica bem posicionado para a segunda etapa (para quem vai de norte para sul). bastante confortável, proporcionou-me uma fantástica noite de sono.

pousada de juventude, almograve

não há muito por onde optar nesta zona, e a pousada é a opção mais económica e inclui pequeno almoço na tarifa. o trilho passa mesmo à porta, antes de terminar uns metros à frente.

casa da praia, zambujeira do mar

casa impecável, muito confortável. fica numa zona calma e tem uma pastelaria ao lado muito porreira para tomar o pequeno-almoço.

casas do moinho, odeceixe

a nossa recompensa, a noite nas casas do moinho b&b, falei dela aqui. adoramos as casas, a decoração, o atendimento, o pequeno-almoço é fantástico. fica um bocado longe do centro de odeceixe, mas vale o esforço para chegar até lá.

transportes

optei por ir de expresso para ao início do trilho. podia ter levado o carro mas quis limitar o nível de preocupações a ter durante a caminhada, e ter o carro comigo seria uma delas. a CP combinada com táxi ou carreiras locais também é uma hipótese a considerar (embora a tenha descartado muito rapidamente, visto que não compensava face ao expresso).

levem os números de táxi locais anotados no telemóvel. por vezes o fim dos trilhos até à localidade mais próxima é feita em asfalto e custa muito. na descrição dos percursos no site da rota vicentina dão dicas sobre isto, levem-nas a sério.

existe um transporte fluvial em vila nova de mil fontes que come uns km à etapa entre milfontes e almograve, há indicações com o número de contacto espalhadas pelo percurso.

Trilho dos Pescadores // dia 5

odeceixe > azenha do mar

...e como eu não gosto de assuntos inacabados e 8km, para quem já tinha andado 80 não eram nada. e porque estávamos frescos, e felizes, e encharcados de adrenalina.. PQP, se não íamos terminar a nossa missão!!

combinei com os meus pais & sis para nos irem buscar a azenha em vez de odeceixe. assim nós acabávamos o trilho, e de seguida comemorávamos todos com uma bela arrozada de marisco, que por acaso já estava prometida há uns meses. era win-win!

deixámos o moinho depois de um belo pequeno-almoço e dois dedos de conversa com as nossas vizinhas suecas. bora lá terminar isto!

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o windguru estava dar chuva a partir das 3 da tarde, mas a essa hora, já lá teríamos chegado, se caminhássemos a bom ritmo. e foi o único dia em que se enganou.

fomos sempre acompanhados pelo, sol. chuva, nem vê-la, apesar nas nuvens com ar ameaçador lá ao fundo no horizonte. encontramos montes de gente pelo trilho fora, pareciam caracóis a sair debaixo das pedras depois de uma valente carga d’água.

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foi o dia que apanhamos mais pessoal pelo trilho. o homem ia continuando o seu recenseamento. de onde são, estão a gostar, onde vão ficar, dicas para comer, etc.
não apanhamos um único tuga naqueles 5 dias. fartura de alemães, suecos, noruegueses, ingleses e até um casal de australianos. tudo pessoal super bem-disposto, contente por estar ali naquelas paragens e a adorar o passeio. tal como nós.

"what about you, where are you from?"
"we're from portugal"
a expressão deles quando se apercebiam era impagável lol

quando alcançamos a azenha novamente eu era uma gaja feliz!
tinha conseguido terminar aquela provação sem ter desistido de nenhuma das etapas, como me apetecia quase todas as manhãs. pode parecer ridículo porque 88km em 5 dias seguidos não é nada de especial para quem faz caminhada ou mesmo corrida à séria. mas para quem não está habituado, é uma brutalidade.

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e ainda assim, a minha vontade naquele momento era continuar por ali a cima e voltar a reviver todas aquelas etapas, cada uma mais dolorosa quem a seguinte, mas com um sorriso estúpido na cara só por estar ali.

é que passar dias inteiros simplesmente a caminhar é uma terapia como deve haver poucas, sentimo-nos parte da natureza, e o estado de paz e calma interior que isso proporciona. não se pensa em nada realmente, só naquilo que os nossos olhos estão a ver, os sons que ouvimos, e nos cheiros que nos entram pelo nariz.

e o ar puro..

esta experiência foi das mais fisicamente exigentes e ao mesmo tempo, das mais gratificantes que alguma vez tive. descobri que a força de vontade é uma algo muito poderoso e faz-nos alcançar o que parece impossível, quando parece impossível. é só meter a mente nisso.

o corpo é de facto uma máquina incrível. as pernas não paravam, apesar de por vezes achar que já não aguentava dar outro passo em frente. como é que eu conseguia continuar a mover-me era um fenómeno que me ultrapassava.

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fiz-nos prometer ali mesmo que havíamos de repetir o trilho, e aproveitar para poder meter em prática tudo aquilo que ele nos ensinou.

pareço um disco riscado por estar sempre a dizer isto, deve ser porque tenho esperança que algum dia dê ouvidos a mim mesma:

tenho que fazer um esforço para me mexer durante todo o ano, sem pausas nem desculpas!

saltar do sofá para estas coisas é demasiado agressivo, mas não consigo evitá-lo, devo ser masoquista lol

 

wrap up!

Trilho dos Pescadores // dia 4

zambujeira do mar > odeceixe azenha do mar

dói-me os pés, dói-me músculos nas pernas que não sabia que os tinha.. mas quero tanto continuaaaaaaaaar. vá lá corpinho, deixa-me terminar, estou tão perto do fim que até lhe consigo sentir o sabor!!

saímos da cama as 11 da manhã. o descanso estava a saber demasiado bem, mas a hora do check out aproximava-se.

tomamos o pequeno-almoço na pastelaria ao lado do alojamento e depois estivemos uns minutos sentados num banco de jardim, a absorver os raios de sol que iam espreitando por entre as nuvens. gosto *tanto* daquele sítio, tem uma luz tão bonita. e no inverno, com poucos turistas e pouca confusão está-se mesmo bem

ainda sem saber bem como ia ser a nossa vida, mais uma vez consultei os horários dos autocarros.. um bocado a contragosto, não era realmente aquilo que eu queria. o homem à rasca do joelho, e eu mal dos tendões, mas naquele momento doía-me mais a alma que outra coisa qualquer.. saber-me ali tão próxima de cumprir o meu desafio, e a ideia de parar por ali simplesmente não encaixava...

o dia estava agradável, haviam praias e paisagens lindas à espera da nossa visita. e a azenha ficava a meio do caminho.. opá.. opá..

eeeeeeeeeee cá vamos nós!!

alteirinhos

seguimos a um ritmo confortável (que é como quem diz, demasiado lento para conseguirmos chegar a odeceixe naquele dia), mas como o gráfico de elevação daquela etapa era um bocado intimidante, com várias subidas e descidas bastante íngremes, não podíamos facilitar. se não, tínhamos que desistir antes de chegar a azenha, no brejão.

lá fomos, todos felizes todos contentes, pelas falésias, dunas, e mata fora. e praias, muitas praias!

zambujeira,

até ao meu regresso

alteirinhos,

alteirinhos

carvalhal da rocha,

carvalhal

carvalhal

machado,

machado

amália,

amália

o mar andou a fazer das suas e as praias estavam desareadas ou com com pouca areia. esperemos que até ao verão, o mar a traga de volta.

destas todas só não conhecíamos a da amália. sabíamos que não era de fácil acesso e não demorou muito constatarmos isso mesmo. e depois da vereda, as dezenas de degraus até lá abaixo à praia? dasssse... vá lá que não tivemos que descer aquilo tudo...

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amália

o percurso entre a praia do machado até à azenha é dos mais desafiantes de todo o trilho. muito desnível, muitos riachos, lama, vegetação cerrada. acho que foi a única parte em que dei graças por ter botas e não sapatos lol ora enfiava as patas na lama, ora num riacho para tirar a lama. andei nesta vida durante uns quantos kms.

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demorámos quase 5 horas a chegar à azenha, já mal conseguia andar e estava pronta para enfardar mais marisco.. por causa do desgaste das articulações.. isso :D

o marido interceptou o casal que vinha atrás de nós desde a amália. os únicos que vimos naquele dia, provavelmente por já termos começado tão tarde. àquela hora já devia estar tudo em odeceixe a descansar a pernas numa esplanada qualquer.

ele era alemão, ela sueca. vinham com alojamento próprio às costas, portanto ainda iam mais na calmas que nós. dormir no meio das dunas, isso sim, é liberdade. mas não os invejo.. a não ser que trouxesse um sherpa atrás para me carregar com a tralha toda lol

trazíamos quase 80km acumulados nas pernas, se a coisa morresse por ali, já não era mau de todo. significava que tínhamos concluído praí 90% do trilho. os 8 que faltavam para terminar, podiam ficar para outra ocasião.. uma pena, mas não dava para mais.

havia um autocarro para odeceixe dali a pouco, mas enquanto estávamos à espera, ofereceram-nos boleia para o nosso destino. fixe!

e mal chegámos a odeceixe, quem é que se cruza connosco? as nossas "vizinhas" suecas! estavam outra vez alojadas no mesmo sitio que nós he he he

o sítio que escolhemos para a última pernoita foi em jeito de recompensa pelo desafio, as casas do moinho. descobrimos aquela preciosidade há uns anos atrás, num passeio nocturno e estávamos desde então à espera de uma desculpa para ficar lá. e esta era perfeita!

não ficámos desiludidos, não senhora!

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dos quartos de hotel (ou B&B neste caso) mais bonitos e confortáveis onde já dormi, sem dúvida!

como tínhamos almoçado tarde, fomos só morder qualquer coisa a um dos poucos sítios que estavam abertos na vila, um snack-bar com um ar ecléctico, mas bastante acolhedor..

e estava a passar the doors (esta banda tem um efeito muito estranho em mim e o ambiente era perfeito para ouvi-los).. e a tosta de queijo com tomate e oregãos estava deliciosa… e no rescaldo de 4 dias a passar as passas do al..entejo, onde tudo tinha acabado por correr da melhor forma possível, e por toda a beleza dos sítios por onde passámos, e a simpatia das pessoas com quem nos cruzámos… não consegui conter uma lágrimazinha de emoção :')

 

caminhar para o dia 5 >

Trilho dos Pescadores // dia 3

almograve > zambujeira do mar

a primeira coisa que fiz mal abri os olhos, foi pegar no telemóvel ver que autocarros havia que me levassem dali até próxima etapa. queria lá saber.. não aguento outra tareia daquelas, ainda por cima a maior delas todas.. argh!

arrastei-me para fora da cama para irmos tomar o pequeno-almoço, tinha umas olheiras tão fundas que roçavam no chão. pelo caminho da cantina, encontro imediato de 3º grau com um amigo (olá rui! se leres isto dá sinal de vida :D) emigrado que não via há anos. sabia que ele andava com intenções de fazer uma visita à pátria, mas jamais sonhava encontrá-lo ali. ele há coincidências do caneco!

na cantina tivemos bastante tempo na conversa com a funcionária. falámos de muita coisa, da experiência que estavamos a ter com o trilho, das enchentes do verão, da juventude desajuizada, da praia secreta dos locais, e também sobre a etapa do dia, que era das mais bonitas, pela duna vermelha e não só.

e eu ganhar um sentimento de culpa enorme por querer deixá-la para outra ocasião. a duna vermelha isa, tu queres tanto conhecer a duna vermelha.. vá lá corpinho fofinho, colabora com a vontade tua dona.. por favor!!

…e mas mais uma vez fui buscar forças nem sei onde (mas asseguro que nenhuma alma foi prometida ao demo em troca de um punhado de energia loll), calcei a botas diabólicas e meti a mochila às costas. o acordo era de fazer apenas metade do caminho, e em cavaleiro apanharíamos um táxi até à zambujeira.. mais que esses 10km recusava-me a andar.

foi a etapa que começamos mais cedo, por volta das dez e meia da manhã. de caminho passamos por uma pequena mercearia, onde nos abastecemos apenas de água. o almoço seria em cavaleiro, num restaurante muito bem recomendado.

fomos nas calmas.. mesmo nas calmas. as paisagens ali são fantásticas e somos obrigados a pausar para dar-lhes a atenção que merecem. de facto, tinha sido uma pena perder aquilo.

um dos pormenores que mais estava a gostar no trilho eram as subtis diferenças na vegetação, na cor e textura da areia, e no recorte das arribas, à medida que íamos progredindo. só isso era suficiente para querer levar aquela provação até ao fim.

apanhámos um grupo de 3 senhoras duas delas já bastante entradotas que vinham no nosso encalço. tinham o dobro da minha idade e dobro da minha genica. que vergonha pá, que vergonha!

como nos demoramos às voltas pela duna, o tal grupo apanhou-nos e o homem ainda se ofereceu para lhes tirar umas fotos e meter conversa. e guess what? suecas. por falar em suecas não vimos as nossas "vizinhas" nesse dia.

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o homem ia-se a passar com uns cogumelos de aspecto sinistro que íamos encontrando ao longo do caminho, e sempre que via um, parava para fotografá-lo. lembro-me, quando era pequena e ia prá horta com os meus avôs, de andar ao pontapé com cogumelos daqueles porque largavam uma nuvem de pó muito engraçada (mais engraçado seria poder voltar a trás no tempo e dar um pontapé em mim mesma, para aprender a deixar a natureza sossegada :P).

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o meu pai acha que são "bufas de velha", o homem diz que são "ovos" de facehugger, eu digo que são os graboids do tremors. se alguém por aí saber o nome técnico e quiser partilhar, fico agradecida :)

cheguei ao cavaleiro com dores horrendas nos pés. apetecia-me atirar as botas pela falésia a baixo como fez a personagem da reese no wild. fónix... mas! contra todas as minhas expectativas, tinha conseguido aguentar-me até lá. not bad.

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restaurante encontrado à primeira graças à pesquisa e aos mapas no telemóvel yay isto quando estamos nas couves, todos os centímetros de chão que se conseguir poupar, são preciosos!

pedi lagartos de porco preto e o homem migas com rojões. estava esfomeada e necessitada de comida potente.

isa antes da pratada de lagartos: "depois do almoço chamamos o táxi, ok?"

isa depois da pratada de lagartos, batatas-fritas e uma mousse de chocolate caseira (hey, no campo de batalha luta-se com todas as armas que se consiga deitar as unhas!): "bom, vamos chegar tarde, mas que se lixe.. bora nessa!"

fizemos ali uma certa batota. como já conhecíamos as redondezas do cabo sardão de outras andanças, cortámos 1km ao trilho, indo directos ao farol. à nossa esquerda, a zambujeira aguardava-nos. ali a umas quatro horas. hopefully...

e na segunda parte da etapa o universo curvou-se perante mim e numa voz ribombante de trovão, disse:

"já não posso com as tuas lamentações mais ao raio da areia, toma lá uma estrada de areia terra batida e NEM MAIS UM PIU!"

AH AH AH AH fixeeeeee!

...ou então não : /

foram 10 longos kms, a direito, sem declive, sempre a fazer o mesmo movimento.. às tantas começamos a desejar piso irregular para que os pés e pernas pudessem quebrar aquela monotonia.

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só sei que nesta altura, andar com uma mochila às costas era o menor dos meus males.. putas das botas pá!! e os meus sapatinhos de caminhada tão confortáveis e levezinhos que são, abandonados em casa, sozinhos, num armário escuro. não se faz, não se faz..

até o homem, que até então vinha fresco que nem uma alface, começou-se a queixar com dores no joelho rombo dele. e isso não eram boas notícias.. as paragens começaram a ser mais frequentes para fazer alongamentos a ver se aquilo aguentava até ao fim sem stresses.

mas as vistas.. as vistas valem por todas as dores!

aquela rocha torcida das falésias encanta-me de sobremaneira.. são marcas evidentes da história atribulada do planeta, e das sucessivas transformações ao longo das eras. é incrivel o que está registado ali naqueles rochedos. 

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(as fotos não lhes fazem justiça : / )

e o mar ali a bater incessantemente, os pescadores a arriscar a vida todos os dias naqueles paredões íngremes e escarpados, para irem ao peixinho e ao marisco. é insano. insano!!

depois daquela estopada que já durava há 3 horas, deparamo-nos com um belo dum desafio: descer quase a pique até ao porto de pesca.. para logo de seguida tornar a subir.

NÃOOOOOOO..

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(pequena pausa para trollar a sis muhahaha)

quase a chegar ao nosso destino, assistimos a um pôr-de-sol como manda a lei, daqueles que tingem o céu com tons quentes de laranja e rosa, e que nos deixam suspensos perante a perfeição do universo.

adicionar aqui o som do mar.

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chegamos à zambujeira do mar todos estropiados.. o homem vinha coxo e a implorar por gelo, eu fascinada por ter a parte de trás dos pés inchada, ali na zona do tendão de aquiles. não sabia tal coisa ser possível sequer. 
doía-me tudo da cintura para baixo.. andava desde há dois dias a sonhar com uma banheira cheia de água quente mas não tivemos essa sorte.

mas hey.. CHEGAMOS À ZAMBUJEIRA. VIVOS!!

ou quase lol


mas isso agora não interessava nada! tínhamos conquistado três das quatro etapas e só isso era suficiente para estar eufórica!


mal cheguei ao quarto meti-me debaixo do chuveiro, e AHHHHHHH TÃO BOM.. depois creme gelado nos joelhos e tendões para ver se acalmam os ânimos. o homem precisava de armas mais pesadas e desceu para xaretar no congelador da cozinha comum. voltou de lá todo contente, com um pack de geleira - as pequenas coisas que nos deixavam radiantes muhahahah


dali ao restaurante onde fomos jantar eram praí 150 metros e foi um suplício atravessá-los. tínhamos os dois com um andar novo e o do homem era tão ridículo que eu já chorava a rir, parecia o asimo :D


engraçado.. bateu-me um apetite tão voraz naquela noite que não conseguia parar de comer. entradas. prato principal. sobremesa..parecia que não via comida há meses!

..ou então era mesmo porque a comida estava deliciosa hi hi hi

eu mereço, eu mereço


o segundo encontro imediato de 3º grau do dia. ter a sensação que conhecia a pessoa que estava na mesa ao lado mas não tinha a certeza. o homem confirmou, uma vizinha que não via desde o verão, até julgava que se tinha pirado, mas não. andava a passear-se pela costa vicentina com os amigos, e ficou chocada quando lhe dissemos que andávamos a fazer o mesmo. a pé! lol


a noite estava fria, e já que a senhora do alojamento tinha acedido a lareira da sala para os seus ilustres hóspedes poderem desfrutar de um serão agradável, aproveitámos. 
estivemos por lá enquanto o homem se abastecia de séries. uma vez que o meu telemóvel estava a ser monopolizado entretive-me a ler uma revista.


entretenimento adquirido, subimos, que eu estava cansada e dolorida e queria fechar a loja. podia ser que uma boa noite de sono me curasse miraculosamente as maleitas :D

 

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Trilho dos Pescadores // dia 2

vila nova de milfontes > almograve

subestimei o trilho dos pescadores. só quero ficar na cama enrolada em posição fetal. dói-me os pés, dói-me as pernas, dói-me as coxas, dói-me os ombros. não tenho forças. quero a minha mãezinha!

...eu e a minha mania de me meter em grandes coboiadas sem ter estofo físico para elas. será caso que não aprendo??

nove da manhã e eu não queria.. aliás.. não conseguia sair da cama. fiz um esforço e fui tomar banho mas depois enfiei-me novamente entre os lençóis. só de pensar naquilo que tinha pela frente até tremia. felizmente, a etapa desse dia era a mais curta de todas, apenas 15km. menos mal.

o homem acabou por ir buscar o pequeno-almoço e o farnel do dia. uma das grandes vantagens dos hostels, descobrimos nós, é que têm cozinha comum e podemos preparar lá refeições. dá bastante jeito.

veio da rua a dizer que tinha-se cruzado com duas suecas de mochila às costas, que estavam de saída pró monte. "quê? não me digas que são as suecas que vinham no mesmo expresso que nós? ca fixe!"

saí da cama, vesti-me e fui-me encher de hidratos de carbono e gordura. vá, let's do this.

mira

a etapa começou bem. num ritmo confortável, mas nas calmas, para mim não cair pró lado a meio da coisa :D

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à nossa frente, lá iam as duas suecas, de SLR em punho a fotografar tudo o que mexia. iam também a cortar mato como gente grande. BATOTEIRAS, pá! :D

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o trilho estava a ser bastante agradável de percorrer, em terra batida pelo meio da vegetação, composta na sua maioria acácias (sei bem que são invasoras, mas não deixo de gostar delas) e o dia estava fantástico para caminhar.

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mais ou menos a meio fizemos uma paragem para comer. aquela velocidade íamos chegar bem cedo a almograve, por isso tava-se bem.

HA HA HA HA querias, não querias?

TOMA LÁ AREIA!!

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vá lá que vez em quando alternava com outros tipos de trilho. aquela etapa é bastante diversificada. pastos, praia, matas, falésias, campos de cultivo, regatos e lama para enfiar os pés. não há um momento de monotonia.

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lá em cima no céu, o cenário começava a mudar.. vinha uma escuridão assustadora no nosso encalço que fazia-me querer avançar mais depressa. só que andar depressa em cima de areia não é assim uma coisa muito fixe e acabei por me cansar desnecessariamente.

o último terço do percurso foi estupidamente duro por causa da areia.. já não a podia ver à frente.. e eu *amo* areia pá!
em terra batida estávamos a fazer uma média de 4km/h, assim que pisávamos areia, descia para 3.. com sorte! que havia alturas que parecia que não saiamos do mesmo lugar..

"por'qué que raio não trouxe eu os sapatos em vez das botas?" era o único pensamento que me ocorria. a falta de experiência é uma coisa tramada.. da próxima vez que for para andar em trilhos de areia, as botas ficam em casa. nem que seja só um mísero km :P

as únicas gotas de chuva que apanhámos nos cinco dias foram nesta parte do percurso. ainda enfiei o poncho mas quase que não valia a pena, foi mais para justificar o facto de o ter trazido lol

also, o windguru rula porque avisou que ia chover por volta das 3 da tarde e as três da tarde foi quando começou a pingar.

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entretanto as suecas que pensávamos já terem chegado a almograve com a bisga que levavam, apareceram atrás de nós. tás a ver homem, não sou a única a fazer milhares de paragens pelo caminho para fotografar tudo e mais alguma coisa e atrasar o passeio :D

estivemos um bocado à conversa com elas (metíamos conversa com quase toda a gente que se cruzava connosco) e depois retomamos a marcha.

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cheguei à pousada de juventude a sentir-me muito pouco jovem. estava tão cansada que só me apetecia enfiar na cama e dormir até ao dia seguinte.

o homem aproveitou para lavar roupa. meteu-se debaixo do chuveiro vestido e ensaboou-se todo, depois usou o aquecedor para secar a roupa. muito desenrascado, este meu homem :D

a dada altura, reparei na desarrumação que práli ia naquele quarto.. o conteúdo das mochilas espalhado por todo o lado. aquilo era tudo nosso? lol fiquei deveras impressionada pela quantidade de tralha que consegue caber em duas mochilas normalíssimas.

continuando a sina de milfontes e porto covo, a maioria das tascas estavam fechadas. mas uma homónima minha salvou a coisa! a churrasqueira “isa” estava a bombar. o homem deliciou-se com um belo dum franguinho assado.. já eu não consegui meter praticamente nada no bucho, de tão moída que estava.

a coisa não podia correr bem no dia seguinte :/

 

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Trilho dos Pescadores // dia 1

porto covo > vila nova de milfontes

acordámos cedo como previsto, e como previsto pelo windguru, o cenário lá fora estava agreste. chuvada e ventania assim pró medonhas.


as previsões eram que até às 9 da manhã o tempo ia estar bera mas que depois começava a acalmar. então deixámos-nos ficar na ronha, a ver o que acontecia.

…e não é que às 9 da manhã deixou de chover? ala que se faz tarde!!

saltámos da cama e fomos à caça de uma mercearia. água, material para as sandes e uma coisa importantíssima que estava em falta e eu não queria começar sem: vaselina!

depois do farnel aviado, arrumamos a trouxa, despedimo-nos do hostel e fomos tomar o pequeno-almoço. nos entretantos, as nuvens tinham começado a dissipar e o dia começava a ganhar outra graça.

o homem saiu do snack-bar a dizer que éramos uns tenrinhos, nós a comer queques ao pequeno-almoço e um local a aviar uma bifana carregada em mostarda, acompanhada de um galão (sim, bifana com galão muhahah). aquilo é que devia dar alento prá caminhada!

por volta das onze iniciamos a nossa jornada. por aquela que é a etapa mais difícil do trilho.. é uma cena tão nossa que se não fosse assim, não tinha piada lol

siga pa bingo

mas estava tão contente por finalmente ir fazer aquilo que não queria saber nem do mau tempo, nem da distância, nem da dificuldade, nem da mochila. queria era andar, andar, andar. andar sem pressas, sem horários, sem preocupações.

le storm

ilha do pessegueiro à vista

os primeiros 10km foram feitos na boa, o trilho está muito bem marcado, nem era preciso olhar para o GPS. não deu foi para atravessar a praia dos aivados porque a maré estava altíssima e o mar a modos que pró agressivo.

tinha avisado o homem que era sensato fazer pausas a cada 5km para descansar as pernas, mas a primeira e única foi aos 12, junto à praia do malhão. já íamos um bocado cansados mas a coisa estava a correr tão bem que nem apetecia parar. ficamos por ali uma hora, enquanto repúnhamos as energias com umas sandochas de queijo e chourição.

a partir daí começou a tortura da areia a sério. areia. areia. areia a dar c'um pau.

anda lá com isso pá

areia, areia, areia

por outro lado, a paisagem ia começando a ficar cada vez mais imponente, irregular, e selvagem. e linda, tão linda.. o caminho passa rentinho à falésia, é mesmo preciso ter cuidado nalguns sítios. quando avisam no site que este trilho não é recomendado a pessoas que sofram de vertigens ou tenham medo de alturas, não estão a brincar.

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aos 16-7km já começava a ficar um bocado rabugenta. os km’s custavam cada vez mais a passar e já me doíam as pernas do esforço que é caminhar pela areia... o que não é muito justo, quer dizer.. farto-me de andar pela praia e nunca tive problemas! ok, com uma ligeira diferença, é sempre a pé descalço.. e sem tanto peso em cima :/

acho que se não fossem as canas que tinha deitado a mão logo à saída de porto covo, tinha ficado práli encostada a uma moita, à espera que a brigada de socorro me viesse resgatar, de helicóptero ou moto 4 artilhada ou assim :D bom, se tinha dúvidas em relação a comprar ou não bastões de caminhada, deixei de ter!

por falar em descalço.. os dois ali a deitar os bofes, quando passa por nós um tipo a correr descalço, em calções e tronco nú, com o ar mais feliz do mundo. não sei o que é que ele andou a tomar, mas naquele momento não me importava de ter um pouco do mesmo :D

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algo que acho bastante curioso quando se caminha: não se nota o tempo a passar. vamos andado, e andado e andando e nem damos por ele. não chateia nem aborrece. demos por nós e seis horas de caminho já tinham passado. anyway, com distracções destas, quem é que está preocupado com as horas mesmo?

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aos 20km aquilo já estava ser uma tortura, mas pelo menos já se avistavam casas lá ao fundo. já não faltava tudo.. mas às tantas precisei de ter uma conversa séria com o meu corpo:

"oh meu amigo, mékié.. há malta que *corre* a distância que eu te estou a impingir, numa fracção do tempo que estás a levar.. aliás, há malta que corre o dobro e mesmo assim em menos tempo.. pior ainda, há malta que atravessa a madeira a *correr*, consegues imaginar tal coisa? ganha mazé vergonha pá e pára de te lamentar, que isto não é nada. NADA.. ouviste? e aquelas pessoas que vão pás montanhas com 4x mais peso às costas, hem? yada yada yada..."

milfontes cada vez mais à vista

aos 22km alcançávamos finalmente vila nova de milfontes. já vinha completamente derreada.. agora, o mais giro (NOT!!) foi quando me apercebi, que o hostel que escolhemos ficava no outro extremo da vila.. mais 1,5km e tal a juntar àqueles 22 já me pesavam no corpo. ARGH!!

foi também por esta altura que comecei a sentir um ligeiro desconforto no calcanhar esquerdo. como sou bem mandada, parei logo para investigar o assunto. uma pequena bolhita, a dar o seu ar de graça.. na única parte do pé onde não tinha besuntado vaselina.. 

logo no primeiro dia.. sim senhora!

saquei das botas e das meias, arregacei as calças e enfiei as havaianas nos pés e lá fui eu. naquele momento prometi a mim mesma que nunca mais iria gozar com o homem por levar sempre as havaianas atrás quando sai de casa. o alivio que aquilo me proporcionou foi brutal!!

já custava a levantar os pés do chão quando o senhor do hostel nos apresentou ao quarto. só queria era tomar banho e cair na cama.

o quarto era pequeno mas *bastante* agradável, again, isto dos hostels estava a revelar-se numa excelente opção. mas logo reúno isso tudo num post mais à frente, acho que merecem que lhes faça publicidade à borla :)

jantamos num sitio novo (pelo menos para nós). queríamos experimentar a famosa pizzaria de milfontes mas como estava fechada, seguimos a recomendação do nosso anfitrião, e fomos ao pátio alentejano. nada mau, é o que tenho a dizer. uma dose dá na boa para duas pessoas, especialmente se uma delas está com pouco apetite porque teve um dia demasiado cansativo. ou então foi mesmo porque sorveu uma pratada sopa de feijão e espinafres deliciosa de entrada hi hi hi

de regresso ao quartel general, fomos até à cozinha/sala de estar e enquanto bebemos um cházito, o homem sacou o entretenimento daquela noite. não vi nem metade, que assim que bati com os costados na cama, não demorei nem 10 minutos a adormecer.

 

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Trilho dos Pescadores // dia 0

a mochila era a mãe das minhas preocupações e o recheio foi afinado ao pormenor, não queria carregar mais do que 5kg às costas. normalmente ando com metade disso e já me custa.

não levava praticamente roupa nenhuma, apenas dois pares de leggings, uma blusa de manga comprida e três de manga curta (duas para caminhar, uma para dormir), e meia dúzia de peças de roupa interior. o resto ia logo vestido, as calças de caminhada, outra blusa de manga comprida e o casaco polar.

corta-vento, poncho prá chuva, chapéu, gorro, luvas, um par de havaianas, e a bolsa de toilete compunham o resto da carga base. com dois litros de água ficava no limite. uma monstruosidade mas não dava para levar menos (ou era o que eu pensava).

o homem para além da roupa e chinelos acartava com as electrónicas (GPS, carregador dos telemóveis, pilhas, lanterna), medicamentos e algum material de primeiros socorros, toalhitas, um saco de biscoitos e outro de frutos secos que foram logo de casa. a mochila dele ainda era mais pequena que a minha, não sei como é que ele conseguiu enfiar tanta coisa lá dentro lol

saímos de casa às quatro da tarde, e às oito da noite o expresso finalmente chegou no nosso destino, porto covo.

não viajava de expresso há mais de 10 anos e não tinha saudades nenhumas.. três horas para fazer aquilo que levo no máximo 1h40m.. dasse! mas pronto, era a única opção directa que havia para lá. e já vais com sorte!

em porto covo ficamos alojados num hostel muito fixe, onde o proprietário nos deu umas dicas valiosas para cortar uns km’s ao trilho (e que eu na altura achava que não ia precisar AH AH AH) e sítios porreiros para comer. avisou-nos também que o tempo não ia estar particularmente fantástico nos próximos dias, mas essa parte já eu sabia.

depois de acomodados partimos em busca de jantar. rapidamente descobrimos que segunda-feira é um mau dia para aterrar em porto covo.. estava tudo fechado, apenas uma pizzaria aberta a servir as poucas pessoas que por ali andavam. will do!

não tardamos muito a ir prá cama, que o dia seguinte era para começar bem cedo.

aliás, o maior desafio para os dias que se seguiam era só um: acordar a horas decentes para nos fazermos ao caminho sem pressas. tipo, começar por volta das 9 da manhã.. AH AH AH AH que piadão!

o homem ainda se entreteve a sacar uns torresmos no meu telemóvel para vermos antes de dormir, que isto de se viajar leve não significa que não se consiga ter alguns luxos :D

 

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'Le me

tem idade suficiente para ter juízo, embora nem sempre pareça. algarvia desertora, plantou-se algures na capital, e vive há uma eternidade com um gajo que conheceu pelo mirc.

no início da vida adulta foi possuída pelo espírito da internet e entregou-lhe o corpo a alma de mão beijada. é geek até à raiz do último cabelo e orgulha-se disso.

offline gosta muito de passear por aí, tirar fotografias, ver séries e filmes, e yada yada, yada... é ler o blog ;)

bucket list

'Le liwl

era uma vez um blog cor-de-rosa que nasceu na manhã de 16 de janeiro, no longínquo ano de 2003, numa altura em que os blogs eram apenas registos pessoais, sem pretensões de coisa alguma. e assim se tem mantido.

muitas são as fases pelas quais tem passado, ao sabor dos humores da sua autora. para os mais curiosos, aqui ficam screenshots das versões anteriores: #11 #10 #9 #8 #6 #5 #4

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