Mini-férias de carnaval

este ano tivemos pela primeira vez despensa na terça de carnaval. aproveitamos para tirar a segunda e fazer umas mini-férias na serra, para ver se a cabeça faz reset.

só não estávamos a contar que portugal INTEIRO tivesse tido a mesma ideia... não, não sabíamos que o carnaval é a pior altura para ir para serra da estrela.. magotes de gente por todo o lado, restaurantes e cafés sempre à pinha, e trânsito medonho. já lá fomos umas quantas vezes, e em diferentes alturas, e nunca me tinha deparado com tal cenário.

na primeira tentativa para subir à torre, que o dia estava bonito e prometia umas horas fixes na neve, ao chegar ao centro de limpeza, olho para cima e começo a ver os carros a abrandar praticamente no inicio da subida. "aquilo é uma fila, a começar ali logo na curva???" pergunto ao homem. era.. tudo parado na encosta da montanha.. nope, nope, nope. temos tempo, siga dar a volta ao monte e entrar pela porta dos fundos. ah ah ah que ideia tão boa, aqui não há filas!!

até que o manto branco apareceu no horizonte, e com ele a confusão. acabámos por nem sair do carro. quase 1h para fazer 2km.. tanta, tanta gente. quando finalmente começamos a descer, fiquei surpreendida por não estar fila para cima. motivo, tinham fechado o acesso à torre no centro de limpeza. fónix...tal na era!



só lá voltámos na terça, no último dia na serra. estava com fé que as nuvens estivessem baixas e que ia chegar lá a cima e estava um dia azul de primavera. mas não, não se via a ponta dum corno por causa do nevoeiro. tava frio e uma ventania do caneco, mas mesmo naquelas condições, andava montes de gente a tentar divertir-se na neve.

passamos pelas paisagens do costume e ainda deu para visitar duas aldeias, que estavam há muito marcadas no mapa, folgosinho e linhares. nunca tínhamos ido para aquela zona da serra e ficamos deslumbrados com a paisagem. pena que as nuvens decidiram assentar arraiais e tiravam a visibilidade. passamos pelo covão da ponte, banhado pelo rio mondego, outro daqueles recantos preciosos da serra, que merece definitivamente uma visita mais demorada.  



a gatifonga foi connosco, que o homem queria levá-la a passear na natureza. desta vez não chegou a ir à neve, que as condições não estavam para isso. mas andou pelas penhas douradas e pelo covão da ametade, e não me pareceu muito chateada :D


a sacana porta-se mesmo bem a andar de carro. vai o tempo todo deitada no colo do homem, a dormitar, ou no banco de trás. não mia, não bufa, não chateia. e aguenta horas sem stresses.

encontramos um gato igualzinhho a ela em folgosinho, apenas mais gorducho. nessa altura não estava connosco mas havia de ser giro metê-los lado a lado he he he

álbum completo no sítio do costume

Nas alturas II

chego a casa na sexta, uns minutos antes das nove da noite. vou directa ao quarto, enfio-me furiosamente no pijama, e salto pra cima do sofá, com intenções de não largá-lo nas 48 horas seguintes.

pego no portátil, a gata toma conta das minhas pernas. all set for the weekend!!
nisto, um colega pergunta no chat se alguém quer ir passar o fim-de-semana em tróia.. à borla!

...eh lá O.o

one does not simply desperdiça um fim-de-semana em tróia.. mékie.. mais ninguém se chega à frente? não? têm a certeza? então tamos nessa!

podíamos ir naquele momento. a reserva era de duas noites, sexta e sábado.. mas tínhamos acabado de ligar o aquecimento central - um evento que ocorre apenas uma vez por ano, já estava de pijama e com o gato acomodado confortavelmente em cima das pernas. vestir-me, aviar a bagagem, jantar, mais hora e meia de asfalto.. era coisa para chegar lá à meia noite..

é nestas alturas que uma pessoa se percebe que está a ficar velha.. se fosse há uns anos nem pensava duas vezes, metia-me na alheta em 3 segundos :P

fomos no sábado, nas calmas. o check-in foi rápido, e não houve stresses com a mudança de nome na reserva. o apartamento ficava na mesma torre da penthouse, a uns míseros metros abaixo dela. ai as memórias, as memórias!

abrimos a porta e... eix! apartamento tão épico. espaçoso, acolhedor, muito luminoso, e com uma vista fantástica. a kitchenette podia ser pequena, mas estava bem equipada. 




reconhecimento ao perímetro feito, bagagem arrumada, descemos para ir almoçar algures na marina.. para descobrir que em janeiro, está tudo fechado em tróia... fónix... mudança de planos: butes ao supermercado buscar umas cenas, e tratamos do assunto no apartamento.

comprámos o almoço... e também o lanche. e o jantar. e a ceia hi hi hi é da forma como não temos que sair para mais lado nenhum \m/

ao inicio da noite ainda passamos pelo spa. não é o melhor spa onde já estive, mas a cavalo dado não se olha o dente. 10mn no banho turco, a água da piscina interior estava demasiado fria para mim, 15 minutos no jacuzzi apinhado, apenas 5 minutos na sauna porque estava demasiado quente, mais 5 minutos no banho turco e decidimos que uma banheirada de espuma lá em cima é que era. e subimos.

jantamos, vimos um episódio de the grand tour, trabalhamos uns bocaditos, ceamos. e assim se passou a noite.

no domingo saí da cama às onze. falhámos o pequeno-almoço no hotel, mas nem sequer me importei. numa próxima, até o pequeno-almoço é no apartamento!

check-out feito, voltinha pelas redondezas, para matar saudades. cada vez gosto mais de tróia, custa-me tanto sair de lá chuif chuinf... e está deserta, nesta altura do ano, bem fixe. o dia não estava grande coisa para passeios, mas pelo menos não estava a chover. antes de regressarmos à base, ainda fomos ao carvalhal, lavar as vistas à praia do pego. já não metíamos lá os pés há uns anitos. foi a nossa praia de eleição durante umas quantas épocas, mas depois ficou na moda e começou a ser complicado ir para lá. demasiada confusão, e confusão é uma cena que não me assiste.



só sei que adorei o apartamento. alta sítio para passar uns fins-de-semana no inverno, mesmo com mau tempo \m/

Trás-os-Montes e Alto Douro // a desforra

no terceiro e último dia de passeio, acordamos como suposto no coração de trás-os-montes, em mirandela.

o que não era suposto foi no dia anterior termos regressado de espanha tão tarde, e o abel não servir jantares aos domingos. e como eu queria *mesmo* ir à posta, tinha que ser à hora de almoço, porque à de jantar contava já ir a meio do caminho de casa.. algo que iria alterar drasticamente o roteiro daquele dia. mas quanto a isso, vacinada já eu estou lol

depois de umas passeatas pelo centro de mirandela, onde ficamos deslumbrados com a serenidade do tua,

 

estava na altura de nos fazermos ao asfalto, ver o que ficou para trás na aventura anterior.

passámos por macedo de cavaleiros, e depois continuamos pela parte rural até à barragem do azibo, para semi-circular a zona. a albufeira do azibo é um sitio porreiro para se passar umas horas. tem praias fluviais, equipamentos aquáticos para alugar, percursos pedestres, etc. percebe-se porque estava tão concorrida naquela bonito dia de primavera.


dali seguimos pela A4 a todo o vapor, lançados a gimonde. chegamos lá por volta da uma e meia e não foi bonito.. estavam mais de 50 pessoas à nossa frente, e já não estavam a aceitar reservas.. é caso para dizer, que nem à terceira foi de vez :P

já que ali estávamos, aproveitamos para dar umas voltas pela aldeia,

 

e depois fui desmistificar os pombais, naquela zona existem bastantes. a maioria estão em terrenos privados, pelo que não me consegui chegar perto de um dos recuperados. mas fiquei satisfeita por ter-me aproximado de um sem ter levado com chumbo no lombo, por invasão de propriedade muhahaha



seguia-se valpaços. provavelmente devido ao feriado, estava completamente deserto. também suspeito que estivesse muita gente em casa, ou espalhados pelas praias fluviais das redondezas, para fugir ao calor. btw, fiquei algum tempo a olhar para este monumento, a tentar perceber se era mesmo assim, ou se estava vandalizado. ri-me um bocado, não se chateiam comigo, valpacenses, não foi por querer :)



terminada a volta por valpaços fiquei indecisa se havia de ir para chaves ou vila real. como já conhecia chaves, meti-nos a caminho de vila real, já orientados para casa.

...e tá visto que ainda não terminamos os nossos assuntos por esta bela região. mental note: visitar trás-os-montes em finais de abril / maio é mais interessante que março. o tempo está mais quente, e as árvores estão começam a ganhar copa, a paisagem está ainda mais bonita!

Saltos y Zamora

a primavera decidiu colaborar e deu de bandeja um dia impecável para passear. a primeira paragem do dia foi muito rápida, em ledesma, para apreciar mais contrastes.



sítio pacato este, no meio do nada. não subimos até à vila porque havia muitos kms pela frente. também é aqui que o tormes começa discretamente a ficar cada vez mais largo, sinal estamos perto da almendra.

a paisagem que se ia desenrolando à frente do nosso nariz era muito familiar, a fazer lembrar as margens do alqueva.



e por falar em paisagens familiares, eis que entrámos em território já conhecido, e sabia exactamente por onde tinha que seguir.

a estrada que sobe ao miradouro da iberdrola é assim a modos que imprópria para cardíacos.. em mau estado, inclinada, com curvas ultra-apertadas, e tão estreita que só passa um carro à vez. temos que ir atentos a duas coisas, se vêem carros na direcção oposta, e onde é que conseguimos parar o nosso em segurança para deixar outro passar. mas nem tudo é mau, pelo menos tem protecções laterais!

quando cheguei ao miradouro, e vi aquela brutalidade em toda a sua graça, só não desatei ao pontapé e chapada comigo própria por não ter ido ali porque.. bom.. estava ali :D



e por termos apanhado uma altura de chuvas, tinha as goelas bem abertas. o spray provocado pela força da descarga de água chegava até cá acima.

de todas as paisagens que vi do douro, nacional e internacional, esta foi a que mais me impressionou. uma majestosa ravina, tão imensa que não cabe nos olhos. faz-nos sentir minúsculos perante a dimensão da natureza.



à vinda, desafiamos um sinal de trânsito e entrámos numa estrada proibida. i regret nothing! se não, tinha perdido isto:



ainda passamos pela povoação que foi erguida para acomodar os trabalhadores durante a construção da barragem. está praticamente deserta e não se percebe porquê, aquilo dava uma estância de férias à maneira.

depois de uma breve paragem para pinchar numa tasca que estava a abarrotar, seguiu-se o outro assunto inacabado: passar pela barragem de almendra. não aconteceu na visita anterior por uma falha de comunicação. o homem não se apercebeu que eu queria passar pela barragem, e eu não reparei a tempo que se calhar não devia ter ido pela esquerda como o GPS estava a mandar, mas sim pela direita. quando dei por mim estava no fundo do leito do tormes e não me apetecia *nada* voltar para trás..

diz que este colosso é uma das maiores obras de engenharia espanholas. não só pela altura e comprimento da barragem em si, 202 e 567 metros respectivamente, como pela quantidade de água que retém no lago artificial. não é tão grande como o do alqueva, mas não deixa de impressionar.



mas a maior particularidade desta barragem hidroeléctrica não são as suas dimensões ou a elegância da sua construção, mas sim, estar descentralizada. existe um túnel com 7,5 metros de diâmetro escavado na rocha, que transporta a água desde o reservatório até à central, situada a cerca de 15km dali, nas profundezas do planalto. 

na central de villarino, por baixo do parque de alta tensão, a água cai 400 metros a pique, gerando o dobro da energia que conseguia se a central estivesse junto à barragem. depois segue para o douro, logo ali ao lado.
e se isto não fosse engenhoso o suficiente, ainda tem a capacidade de quando não está a produzir energia, poder reverter o funcionamento das bombas e sugar água da barragem de aldeadávila, (aka, do rio douro) de volta para o reservatório.

a sério que pagava para ter uma visita guiada às entranhas desta central..



ao consultar o mapa para ver que caminho havíamos de tomar de volta à pátria, diz o homem:

"não acredito que estamos tão perto de zamora e não vamos lá..."

oh amigo, não seja por isso!

...e foi assim que ficamos também a conhecer zamora :D

tal como salamanca, zamora é uma cidade muito antiga, e partilha semelhanças geográficas e históricas. plana e banhada por um rio (o douro), e tem uma bonita ponte romana e uma vasta colecção de monumentos antigos preservados, que pode não ser tão impressionante como a de salamanca, mas é igualmente interessante.

no entanto é mais pequena, tem menos de metade dos habitantes, e menos turistas ainda. o que significa que é bastante mais calma e desafogada. e tem é uma exposição solar e uma luminosidade incríveis.



depois de visitar o castelo, demos um longo e agradável passeio junto ao rio, que se não estivesse tão agitado, seria um autêntico espelho.

de seguida subimos para o centro histórico e foi ali que notei as principais diferenças entre salamanca. as fachadas das casas e arquitectura dos edifícios públicos não é tão homogénea, existe muita mistura de estilos. e por alguma razão, o comercio parece estar em crise. muita loja fechada, ou em liquidação total para encerrar. tive pena deste detalhe.



oito e meia, era tempo de terminar a visita e regressar à estrada. 

entrámos em portugal e fomos directos a gimonde, já a salivar só de pensar na posta do abel. e sabem que mais? pumba, nariz na porta!

oh well, amanhã também é dia.. a parte chata? ter reservado alojamento bastante longe dali, em mirandela. qualquer dia desisto de fazer planos e vou ao sabor do momento.. tínhamos pernoitado em brangança e no dia seguinte seria mais fácil tratar deste assunto.

outra parte muito chata de tentar jantar num sítio relativamente pequeno num domingo à noite (na véspera de um feriado), já não muito cedo: todos os restaurantes que tínhamos assinalados estavam fechados. não foi fixe.

álbum completo aqui

Lost in... Salamanca

a primeira coisa que fizemos ao regressar de trás-os-montes foi descarregar o trilho do GPS. fiquei desgostosa com aquele vazio ao centro. e estava desgostosa por falhar coisas básicas, como o abel e os pombais. e porque em espanha não deixei um assunto inacabado, mas sim dois..

ora o homem, que não me pode ver a remoer, começou a traçar um plano hipotético por cima do mapa.

"tens bom remédio. da próxima vez, pegas na gente e vais directa para espanha. passamos a noite algures por aqui, e no dia seguinte voltas para portugal sempre junto à barragem e vês aquilo TUDO!"

como havia fim-de-semana comprido no horizonte, eu respondi abrindo o google maps, o booking, e o tripadvisor. e foi assim que 24 horas depois do regresso, ficou logo decidida, escolhida, e marcada a desforra. com o bónus de ir conhecer uma cidade que desde há uns anos que me aguçava a curiosidade.

abril foi um reboliço tão grande que não consegui planear praticamente nada para a viagem. a sorte foi que estava marcada com um mês de antecedência, se não, acho que acabaria por nem acontecer. é um truque interessante para meter em prática.

na sexta à noite enfiamos umas tretas para dentro dum saco, e no sábado ao fim da manhã ala que se faz tarde. depois de quatro horas sem tirar o pé do acelerador, salamanca surgia finalmente no campo de visão.

há uma coisa que costumo dizer e garanto que não é mentira: não sou fã de cidades. gosto de aldeias e vilas. cidades, especialmente as movimentadas, fazem-me confusão em vários níveis.. mas existem cidades que me mandam ao tapete. aquela foi uma delas.

para começar, a localização. ao sair de portugal, pela zona montanhosa da serra da estrela, entrei num planalto magnifico, a fazer lembrar o alentejo. uma hora de condução praticamente a direito, com a vista totalmente desafogada em pano de fundo, e uma tranquilidade deliciosa. verde, e verde, e mais verde, aves de rapina a perscrutar os campos lá no alto, gado na descontra pelos imensos pastos. a cidade surgiu no meio daquele plano como um oásis no deserto.

orientei-me pelas cúpulas da catedral para ir directa ao centro. enquanto procurava um sítio onde enfiar o carro, tive o primeiro vislumbre daquilo que me esperava, e começou a baixar ali uma sensação de assombro. carro estacionado, toca a dar corda aos sapatos.

perdi-me nos contrastes.

o coração de salamanca transpira história, quase sentimos o tempo a recuar até às suas remotas origens... a quantidade quase obscena de monumentos impecavelmente conservados, convive paredes meias com edifícios mais modernos, mas que nem por isso destoam. é que para além do notável esforço em manter o estilo pitoresco, e preservar o encanto romântico das fachadas, existe um elemento-chave que liga aquele cenário todo - a cor dourada da pedra utilizada nas construções.

não só ofusca as diferenças entre os edifícios antigos e os novos, como por ser uma cor quente, transmite uma sensação invulgarmente acolhedora. apetece mesmo perder-nos por aquelas ruas e ruelas todas, e não é apenas pela beleza dos edifícios.

la clerecía y conchascatedralplaza de anayapalacio de la salina

alguns detalhes surpreendentes: não há cá painéis a descaracterizar as fachadas, os letreiros são escritos a tinha vermelha na pedra; as placas dos números de polícia serem idênticas em todo o centro; e a decoração dos suportes das caleiras.

pode ser uma cidade muito antiga, esforçar-se por manter um ar quase medieval, mas não tem um feel antigo. a razão é simples: sendo um enorme polo universitário, está tomada de assalto por milhares de estudantes. há gente jovem por onde quer que se aponte os olhos, a curtir a cidade nos tempos livres. a juntar às hordas de turistas, é uma mistura que resulta num ambiente muito animado e descontraído.

puente romanoUntitledhuerto de calixto y melibea

durante a tarde, à medida que as nuvens cinzentas se iam afastando, as ruas iam enchendo cada vez mais. nas zonas mais concorridas chegava a ser difícil andar sem andar a encalhar em alguém. ainda assim, a cidade permanecia limpa, e não havia qualquer vestígio de insegurança.

rúa mayor plaza mayorbeer o'clock

andamos, andamos, e andamos. tentando evitar ao máximo passar duas vezes no mesmo sítio. a cada passo que dava, a cada esquina que contornava, abria-se um mundo novo. sempre com qualquer coisa de fantástico para admirar. duas coisas que eu não conseguia fazer: tirar os olhos de cima e o queixo de baixo. três, se juntar o facto de não conseguir tirar o dedo de cima do disparador da máquina.. de fazer um turista japonês corar de vergonha LOL

para lá do passeo de san vicente e da gran vía, surgia uma cidade absolutamente normal, com outro tipo de movimento, trânsito, e muito menos concorrida pelos turistas.

só paramos quase às oito e meia, e foi porque tínhamos uma reserva num restaurante longe do centro.

uma coisa que aprendi neste salto a espanha, janta-se tarde por lá. quando fiz a reserva, não me ocorreu que às oito e meia, o sol ainda vai alto e era capaz de ser cedo para cenar. parece que só lá prás dez é que eles começam a pensar no assunto. also, explica porque é que há uns anos atrás, a minha reserva no restaurante em madrid ficou sem problemas para as dez e meia, e às onze ainda havia gente à espera de mesa. hum.. agora por isso, será que fui espanhola na minha vida anterior? é que o meu ritmo circadiano está muito melhor ajustado aos horários deles que aos nossos :D

cala fornells paella

do restaurante fomos directos para o hotel, comigo a lamuriar por não ir dar umas voltinhas noturnas pela cidade. mas estávamos cansados, e o dia seguinte ia ser igualmente cansativo. era melhor não arriscar, que uma pessoa já não vai para nova.

claro que passei as duas horas seguintes a engendrar um regresso mais demorado. e depois voltei a atenção para a tv, que estava a passar o alien (o manhoso) dobrado em espanhol muhahaha

álbum completo aqui

 

seguir para a segunda parte >

Trás-os-Montes e Alto Douro // dia 5

infelizmente não dava para esticar mais, o algarve estava à nossa espera. não só porque havia um sobrinho prestes a vir ao mundo, como aquele certame magnifico que eu não perco por nada deste mundo, e que me faz ter problemas de espaço na arca frigorifica durante uns tempos, a feira do folar de barão de são joão. grande timing, o do puto!

começamos a longa despedida de trás-os-montes com uma paragem rápida para admirar o castelo do algoso cá de baixo. parece minúsculo, mas não deixa de ter um ar completamente badass. muita coisa marada devem ter testemunhado aquelas muralhas. consigo imaginar gente a rebolar por aquele penhasco abaixo que é uma alegria. até oiço wilhelm screams LOL

castelo de algoso castelo de algoso

depois passamos por vimioso para ir comprar umas alheiras. dali seguimos para a feira do folar de izeda. eu tenho uma "cena" com feiras do folar, tá visto. tinha reparado no cartaz no restaurante em mogadouro e pensei que era uma pena não conseguir ir... mas consegui muhahahh win \m/

a caminho de izeda, uma breve paragem para apreciar a ponte romana. não que tivesse visto poucas nos últimos dias, mas são bonitas e não me matava perder uns minutos, estando tão perto da passagem.

ponte de izeda

aqueles folares é que não são bem a minha cena, salgados e cheios de enchidos, mas é a tradição dali. saímos da feira carregados com dois folares enormes, um pão de azeite, bolos económicos, mel, mais alheiras e um chouriço de mel. tudo caseiro. not bad!

feira do folar de izeda feira do folar de izeda

dali seguimos por estradas de curvas intermináveis até ao tua, algumas duas horas de tortura ao volante. ainda que tivéssemos que fazer umas quantas paragens para apreciar as vistas, que aquilo é pornográfico. mesmo.

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quando finalmente cheguei ao topo do tua, cujas curvas quando vistas do mapa, dão assim um certo frescor na barriga, já vinha tão anestesiada que nem dei por elas..

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para mais tarde recordar, que este vale daqui por uns anos vai estar cheio de água..

e do tua fomos ao pinhão. e eu consegui escolher a pior estrada de todas, por ser a mais curta. uma municipal que segue pelo meio dos socalcos de vinha, onde só cabe um carro (e mesmo assim, o google andou por lá, ah valentes). foi agressivo, mas o pior ainda estava para vir..

quando chegamos a casal de loivos, havia a indicação que pinhão era pela direita.

"mas o GPS diz que é pela esquerda" insiste o homem. 

ora essa, se o GPS diz, quem sou eu para duvidar!

pois... devia ter duvidado, pela longevidade saudável do meu coração...

não sei se alguma vez me vou esquecer do terror que foi descer a rua da calçada. uma rua em calçada já muito polida, estreita, que desce 300 metros quase a pique pelo monte abaixo. eu lembro-me de uma estrada parecida àquela, na madeira. mas muito mais curta e muito menos assustadora. se me falhassem os travões, só parava a meio do douro.. mas lá que era cénica, era!

foi triunfal, para que nunca me esquecesse da dureza daquela terra, e do que sofrem as populações para se deslocarem de uns sítios para os outros. do pinhão até régua, pela nacional 222, conhecida por ser a estrada mais agradável do mundo para conduzir, foi um doce. uma recompensa à maneira pela minha resistência.

n222

paramos em peso da régua para ir comer qualquer coisa, que ainda não tínhamos almoçado e a fome era mais do que muita, e aproveitar para comprar mais recuerdos. desta vez vinho, que o homem não queria sair dali sem um par de garrafas das terras do grifo, a quinta que mais nos impressionou na viagem toda. uma paisagem daquelas tinha que ter um sabor do outro mundo, pena eu não conseguir atinar com vinho :(

e foi ali, sentados no bar da estação de comboios de peso da régua (funny story lol), a "lunchar", que demos a odisseia transmontana por terminada. cansadíssimos, cheios de pena por ter acabado, mas a rebentar de emoção pela épica dimensão do passeio.

achava eu que podia acordar nos confins do norte de portugal, e ir dormir nos confins do sul de portugal, mas ter misturado a viagem de regresso com passeio, foi demasiado. quando cheguei a casa às onze da noite já tremia por todos os lados e não era de frio. tinha que descansar umas horas antes de fazer mais três centenas de km..

notas finais, em jeito de resumo:

a quem goste de turismo da natureza, aconselho plenamente uma demorada viagem por trás-os-montes e alto douro. tem áreas incríveis de paisagem em estado bruto, áreas agrícolas cuidadosamente geridas, vida selvagem, transborda história e tradição, as gentes são genuínas e gastronomia deliciosa.

o meu roteiro foi definitivamente ambicioso para o cinco dias, e apesar de ter tentado optimizar a viagem ao máximo, existem sempre coisas que nos escapam. ou porque demoramos mais tempo nalgum sitio e fica tarde, ou porque surgiu mais um ponto de interesse, ou porque demoramos mais tempo nas deslocações que o suposto, entre outros detalhes que não temos em conta quando se planeiam viagens.

as duas zonas que mais tinha interesse em conhecer, o montesinho e douro internacional, merecem ser devidamente desfrutadas. três dias no montesinho seria o ideal, já o douro internacional + planalto mirandês, precisa de quatro ou cinco. e apesar de ainda assim ter conseguido ver muita coisa, (como é costume) regressei com a sensação que ficou muito para trás.. algo que não é necessariamente mau :)

sofri um bocado ao volante, com tanta curva e subida e descida, e estrada apertada. mas adorei cada minuto, cada um dos mil quilómetros, assim como cada golfada de ar puro que inspirei, cada vista que queimei nas retinas. voltava (voltei!) para lá a correr :D

apesar dos inúmeros cantinhos que ainda me faltam pelo meio, é uma honra conhecer portugal de norte a sul, de de este a oeste. era um desejo antigo, que finalmente vejo realizado. temos um país fantástico, vale tão a pena explorá-lo.

last but not least, o registo fotográfico completo da passeata está no sítio do costume

Trás-os-Montes e Alto Douro // dia 4

...eeeeeeee tivemos que voltar para trás!

nossa sorte é que aquele dia estava livre para o que desse e viesse. inicialmente tinha previsto subir e conhecer alfândega da fé, mirandela, macedo de cavaleiros e mais qualquer coisa. só que não.. não estava preparada para deixar o douro internacional assim sem mais nem menos, queria continuar a deliciar-me com aquelas paisagens obscenas.

mas antes de atacar a estrada, aproveitamos para conhecer torre de moncorvo. demos um agradável passeio pelas ruas centro e fizemos uma coisa pouco habitual, visitar uma igreja. mas sendo o ex libris, tinha que ser :)

o que gostei mais de ver em moncorvo não foi propriamente na vila, mas umas centenas de metros acima, na mata do concelho. a vista majestosa que se tem do miradouro de santa leocádia quase até ao infinito, que é de fazer uma pessoa esquecer-se de respirar. não cabe inteira nos olhos, é preciso começar com o queixo sobre um dos ombros e ir rodando lentamente a cabeça, depois repetir o movimento em sentido inverso. e repetir, e tornar repetir, até garantir que apanhamos todos os instantes que se perderam nos pestanejares.

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quando finalmente conseguimos quebrar aquele feitiço, voltamos à nacional 325 e seguimos em direcção a freixo de espada à cinta. completamente deslumbrados pelas paisagens que surgiam a cada curva. amendoeiras, oliveiras, e laranjeiras cobriam os montes e tornavam aquele cenário muito familiar. quase a fazer lembrar o algarve.

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ao passarmos por barca de alva ficámos maravilhados com a placidez aquele recanto, e naquilo de era suposto ser uma "visita de médico", demos largas ao ócio. fomos até ao outro lado da fronteira apreciar o imenso espelho proporcionado pela fusão das águas do rio águeda com as do douro. não apetecia nada sair dali.

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retomamos a direcção a freixo de espada a cinta, por uma estrada incrivelmente cénica, e eu sem puder desviar os olhos do volante. fazíamos paragens praí a cada 5km para poder absorver devidamente a paisagem.

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não chegamos a espada à cinta, saltamos para espanha no salto de saucelle, que eu tinha uma estrelinha num sitio altamente refundido, mas que prometia. a minha entrada no parque natural de arribes del duero foi triunfal. aquilo é uma subida quase a pique, por estrada apertadíssima, com curvas igualmente apertadíssimas, e quase sem protecções laterais. ia por ali acima a tremer por todos os lados, com medo de me despistar e ir a rebolar até lábaixo.. cada vez que vinha um carro na minha direcção até rezava o pai nosso. às tantas, já bem no alto, um sacana aparece-me em cima numa curva. não me borrei toda com o susto por um triz, e saiu-me do fundo das goelas um FILHA DA PUTA!! bem furioso. nesse mesmo instante, o homem desmancha-se a rir.. porque eu vinha com o vidro aberto. porque o outro vinha com o vidro aberto. e porque passamos tão junto, é provável que lhe tenha acertado com uns quantos gafanhotos na tromba : /

salto de saucelleUntitled

apanhámos um engarrafamento de espanhóis no mirador del fraile. uma confusão maluca, entre carros e caravanas e pessoas. saiu tudo à rua naquele dia, e pelos vistos, foi-se tudo enfiar no mesmo sitio.

mirador del frailesalto de aldeadávila

não sou grande fã de barragens mas fiquei assim, a modos que um bocadinho obcecada com esta bisarma. diz que é a barragem espanhola com maior produção de electricidade e eu não duvido. se tivesse mais tempo, tinha ido também ao miradouro da iberdrola, ver aquele paredão colossal mais de perto. assunto inacabado, pumba!

o planalto do lado espanhol é bastante parecido ao nosso, as aldeias é que não são tão bonitas. mas também apreciei bastante conduzir por aquelas paragens. funny thing, nas duas horas que andámos por lá, não vi um único carro com matricula tuga, e um hermano que se meteu connosco no miradouro, ficou assim meio incrédulo, como se fossemos do outro lado do mundo, em vez da outra margem do douro. ca raio...

entramos em portugal por bemposta, e ali tivemos que tomar uma decisão que não dava para adiar mais, onde dormir naquela noite. três coisas que aprendemos na hora seguinte:

- fome e cansaço levam a más decisões;
- as aparências iludem;
- lá porque o alojamento tem 8 e qualquer coisa no booking, não significa necessariamente que seja "óptimo".

o universo curvou-se perante nós, e num tom condescendente repleto de sarcasmo disse, "meus amigos, já tiveram demasiadas boas experiências com alojamento, ora tomem lá um chungoso para equilibrar a balança".

como é que hei-de colocar a coisa... o ambiente não era só "rústico", como cheirava a "rústico". especialmente o quarto. as almofadas eram duras como sacos de pedra, e o barulho do mini-bar, do ar condicionado, e da ventax do wc iam dando comigo em maluca, a pontos de termos que desligar aquilo tudo para conseguir ter algum silêncio. custei a adormecer naquela noite, logo aquela que precisava de mais descanso para enfrentar os 500km de estrada do último dia. safou-se o jantar, a comida era boa e as doses bem servidas, mais nada. não se entende, a localização é porreira, o edifício por fora é bonito. aqueles quartos é que já levavam uma granda volta.

 

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Trás-os-Montes e Alto Douro // dia 3

...agora eu estava lixada. havia uma porrada de sítios que achava que mereciam ser visitados mas por termos marcado o alojamento daquele dia bastante longe da zona, não ia conseguir ver tudo.. bah!

btw, a água da terra fria, não é fria, é gelada! ia congelando as mãos a lavar a loiça do pequeno-almoço lol

depois de um breve encontro com um burro mirandês, dissemos adeus à pacata aldeia de caçarelhos e partimos para espanha, encher a pança da mula do carro. o passeio do dia começava junto à fronteira, pela rua das eiras.

passamos por umas quantas aldeias, mas foi a partir de infainç / ifanes que a coisa começou a ficar curiosa. as placas à entrada das localidades tinham dois nomes, precisei de passar por umas quantas até que se me fez luz na cabeça. era o nome em mirandês, que surgia por cima do nome português. muito respeito por este detalhe. o que achei piada nestas aldeias é que quase todas tinham museus, ou infraestruturas antigas preservadas para dar a conhecer como se vivia ali noutros tempos. e eu sem margem de tempo para visitar. outra coisa que gostei de ver é que quase todas têm casas de alojamento local. hint, hint!

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subitamente a paisagem modificou-se. os terrenos alisaram, as curvas atenuaram, o horizonte expandiu-se. estávamos no planalto mirandês e eu delirei com aquelas estradas. o dia estava perfeito para passear.

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alcançamos a paradela e seguimos até ao miradouro da penha das torres. este não só é o primeiro lugar em portugal onde se vê nascer o sol, como é onde o duero se junta a nós e se torna também no douro. depois do planalto, o recorte dramático na paisagem provocado pelo leito do rio é simplesmente brutal. demorava-me uma eternidade neste sitio fantástico, se pudesse.

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dali fomos até miranda do douro ver as vistas...

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...e de miranda do douro a picote, mirar um dos meandros mais bravos que o douro cavou

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nesta altura, eu, que sou mais de oceanos e nem por isso ligo muito a rios, estava completamente assombrada por aquela força bruta da natureza que era o douro. e tenho que admitir que vê-lo todo estrangulado por barragens dá-me um certo desgosto. aquele vale profundo de escarpas massivas e gargantas apertadas não surgiu por acaso..

picote está muitíssimo bem preservada e é um sitio muito agradável de visitar. as suas origens remontam à pré-história, e é possível ver vestígios dessa altura. outro detalhe interessante é que aqui, também as placas com o nome das ruas surgem com o nome em mirandês e português.

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seguia-se o castelo de algoso, com passagem por palaçoulo, a terra das facas. também queria passar pela aldeia de uva, para desmistificar as tais casinhas curiosas que tinha visto no dia anterior na cova da lua - que graças ao guia da terra fria, sabia agora que eram pombais. existem centenas deles um pouco por toda a região transmontana, embora a maioria esteja em ruínas. uva seria o sítio a visitar, por ter a maior concentração destas peculiares estruturas, e da maior parte delas estar recuperada.

foi incrível o tempo que demorei a chegar a algoso. quando olhei para o mapa e pensei que era um "tirinho"... o tanas!! o que eu não esperava é que a geografia se tivesse alterado tão drasticamente entre o palaçoulo e algoso. demorei três vezes mais tempo a lá chegar do que previa. e com isto, não parei em uva e só vi os pombais ao de longe. outro assunto inacabado, meh..

mas ter apanhado o pôr do sol no castelo de algoso, foi magnifico!

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aliás, o castelo é magnifico. está construindo no topo de um penhasco massivo, que cai a pique umas boas dezenas metros. a vista é de cortar a respiração, não aconselhável a quem sofre de vertigens.. tipo eu!

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fomos tramados pelo horário de inverno, já estava fechado e não foi possível visitar o interior das muralhas :(

a pernoita do dia seria em moncorvo, mas fizemos uma paragem em mogadouro para jantar n’a lareira. íamos finalmente provar a grande especialidade da região, a posta mirandesa. yay!

o tamanho do naco de carne em questão assustava-me. por mim, dividia uma posta com o homem e ficava cheia, mas o chef da lareira garantiu-nos que quando é bom, come-se com gosto e não sobra nada. então venha daí uma posta e uma costeleta, sem medos!

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a carne, grelhada à frente dos nossos olhos, veio acompanhada por uma espécie de gratinado de batata lascada, e salada selvagem de marujinha (merugem), uma planta silvestre que cresce nesta altura do ano, perto de água corrente. tão tenrinha, e fresquinha e deliciosa que era :D’

...e zomg!! que carne fabulosa. o homem tinha razão, não sobrou nadinha. ainda que o estômago estivesse em perigo iminente de explosão he he he

quando chegamos a torre de moncorvo estávamos de rastos, os dois dias frenéticos de passeio estavam a começar a fazer mossa no corpo. quem disse que passear não cansa?

e seria o quarto do dia o elo mais fraco das pernoitas?

nop, mais uma excelente escolha. we’re definitely on a roll! o edifício tinha sido recuperado recentemente para alojamento, mas ao contrário dos anteriores, era de arquitectura moderna e decoração minimalista. o quarto era espectacular, super acolhedor, e a cama, divinal!

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desliguei assim que aterrei no vale dos lençóis.

* estadia e refeição patrocinada pela minha estimada conta bancária

 

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Trás-os-Montes e Alto Douro // dia 2

o menu do dia era ambicioso. conhecer o parque natural de montesinho, visitar umas quantas aldeias, fazer uma bucha em gimonde, e se tivéssemos tempo, acabar o passeio em bragança. isto tudo até por volta das seis, para não chegarmos muito tarde ao destino do dia, caçarelhos, que fica já em pleno planalto mirandês.

(porque infelizmente ainda não dominamos o conceito de deitar cedo e cedo erguer) deixámos tuizelo por volta do meio dia. agora sim, a aventura ia finalmente começar \m/

com neve nos picos da sanábria e vento a soprar de norte, o parque de montesinho parecia um frigorífico. mas o cenário compensa o desconforto.

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então, a isa tem uma *certa* obsessão com fronteiras. aquela linha muitas vezes imaginária fascina-a de sobremaneira, mas não sabe bem explicar o porquê. e como é lógico, estando tão perto, não ia perder a oportunidade de andar a roçar-se nelas.

por exemplo este troço de estrada, que segue os contornos da nação:

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não existe aqui nada, não tem nenhuma atracção especial. a paisagem é bonita mas nada do outro mundo. no entanto perdemos aqui mais tempo do que aquele que quero admitir, aos saltos entre os dois lados. portugal.. espanha.. portugal.. espanha.. portugal.. espanha.. muhahahah adorei!

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uns kms mais a frente, um cenário muito caricato ao dobrar uma curva: um cemitério na localização mais estratégica de sempre (com o devido respeito aos que lá repousam). que é como quem diz, uma distracção na estrada e vais directo à tua última morada!

a próxima paragem seria a barragem da serra serrada, no topo do parque. para alcançá-la passamos por uma aldeia com um nome brutal, cova da lua, e que eu me arrependo muito de não ter parado para conhecer melhor. aqui vi a umas casinhas que me despertaram a curiosidade. semi-redondas, baixinhas, com o telhado de esguelha, e sem janelas, apenas uma pequena porta. mas tinha pela frente demasiados km para estar a fazer paragens não programadas e não quis arriscar..

seguiu-se uma etapa em modo off-road. se há uns anos não me chateava mesmo nada enfiar o carro em estradas de terra batida, agora, com o carro a fazer oito anos e já com mais de 150k km no motor, começo a ficar com medo de grandes cavalgadas - algo que me rende gozos da parte do homem, que antes era badass e agora estou feita uma coninhas e assim. anos.. anos de dedicação!

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funny thing. ia visitar uma barragem, acabei por visitar duas. é que a primeira que encontrámos, a barragem de veiguinhas, é recente e nem sequer aparece no google maps.

e que belas vistas, tanto uma como outra, renderam!

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apanhamos vários estrangeiros a caminhar por estas terras. fiquei invejosa.

próxima paragem: aldeia do montesinho. esta é clássica. ir ao montesinho e não ir à aldeia do montesinho era como ir a roma e.. you get the picture. esta aldeia é um postal. está bem preservada, as habitações em xisto ou granito, têm sido reconstruídas respeitando a traça tradicional. foi aqui onde pude ver pela primeira vez as casas típicas transmontanas que, segundo o que aprendi na escola primária, têm dois pisos. no de cima é onde vivem as pessoas, no de baixo é onde guardam o gado, para ajudar a aquecer a casa. ou qualquer coisa nessas linhas, já foi há muito tempo que andei na primária. quase 30 anos *gulp*

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entretanto passámos por uma série de aldeias, mas não houve oportunidade de parar porque já se fazia tarde e eu ainda não tinha chegado aquela que mais queria conhecer, rio de onor.

quando andei a lamber o mapa, tropecei numa aldeia no extremo nordeste transmontano que parecia ser atravessada pela fronteira. eh lá! eu tinha que ir ver aquilo com os meus próprios olhos e especialmente, ouvir os habitantes. que língua se falaria ali? português? espanhol? portunhol?

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são duas aldeias diferentes, rio de onor e rihonor de castilla, e independente de pertencerem a países diferentes, a população não liga muito à divisão e vive em comunidade, partilhando entre si, recursos naturais e infraestruturas. a parte portuguesa está mais habitada, e está (muito) melhor preservada que a gémea espanhola, que está a cair aos bocados. em relação a línguas, no lado espanhol ouvimos falar espanhol, no português, português. de riodonorês nem um pio :(

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entretanto encontrei um post que explica muito bem a divisão entre as duas aldeias.

tinha dado dois paços em espanha, quando vi este painel informativo sobre a zona:

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decidi trollar o homem:

"olha lá mor, estamos na serra de la culebra"

wait for it... wait for it.. waaiiii...

"enrique, estas aqui?" ... "e tu? siempre como culebra!" quando começa com isto não consegue parar tão cedo muhahahah não se calou na meia-hora seguinte, pelas ruas derihonor, a dizer que ia bater à porta e perguntar se o enrique estava. tão bom (para quem não apanhou a referência, fica o link)!

aquilo que mais me belisca, é que nestas aldeias, apesar o lufa-lufa dos seus habitantes, vive-se muito devagar. parece que o tempo é infinito. e o contacto com a natureza é qualquer coisa.. uma corsa saltou do meio do nada para o meio da estrada e desapareceu novamente para o meio do nada. fiquei maravilhada. só faltou ver um lobo.

dali seguimos por guadramil, uma aldeia do mesmo género de rio de onor, mas ainda mais isolada, como se tal coisa fosse possível. arrepio-me de pensar em como será viver num sítio tão remoto. ok, bragança não fica assim tão longe como tudo isso.. mas é uma zona muito desolada.

chegamos a gimonde demasiado tarde para almoçar e demasiado cedo para jantar no abel, mas como estávamos a morrer de fome acabámos por ir petiscar uns enchidos numa tasca ao lado. e porque fomos descaradamente cobrados à turista estrangeiro, não ganharam novos clientes.

ainda raspámos em bragança mas como já se estava a fazer tarde e ainda tínhamos uma hora de caminho até caçarelhos, acabamos por não parar. três assuntos inacabados, posta n’o abel, e visitar cova da lua e bragança. quatro, se juntarmos uma caminhada pelo percurso do porto furado.

estava eu a comentar com o homem, enquanto esperávamos pela nossa anfitriã, que pelo valor da dormida daquela noite, caçarelhos ia ser o elo mais fraco das pernoitas. mas depois a dona do alojamento chegou, abriu a porta e disse que a pequena, mas muito acolhedora casa, já com a lareira acesa e tudo, estava por nossa conta.

oi?

não deu para perceber bem quando fizemos a reserva no booking, mas aparentemente, não era um quarto, era a casa toda! quarto, sala, e cozinha, abastecida com pão fresco, ovos, leite, iogurtes, queijo, fiambre, sumo, doces café, chocolate, chá e toda a panóplia necessária para cozinhar... por 40€? sabem aquela sensação que estamos a roubar alguém sem estarmos a roubar? foi por ai.. acabámos por pagar um bocadinho mais do que o suposto porque a consciência não deixava. uma pena do caraças só ficarmos lá uma noite.

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, a dona da casa emprestou-me um guia da rota da terra fria que me veio complicar o esquema.. passei o resto da noite a marcar estrelas no mapa, de sítios que seria interessante conhecer. oh my...

* estadia patrocínada pela minha estimada conta bancária

 

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Trás-os-Montes e Alto Douro // dia 1

é indescritível, o acordar na casa da árvore. a roupa macia da cama e as almofadas fofinhas proporcionaram-me uma noite de sono fantástica e dormir suspensa é capaz de ser das melhores sensações de sempre. a casa oscila ao de leve, embalada pelas correntes de vento e até pelos passos. a tranquilidade do cenário natural, a luminosidade filtrada pelos ramos das árvores, as nuvens a deslizarem pelo céu azul... BLISS!!

não. lamento. eu não vou sair daqui nunca. aliás, eu quero mudar-me praqui e passar o resto da vida em frente a esta janela. boa sorte em me arrancarem daqui. é bom que chamem um reboque. ou melhor, dois!

o pequeno-almoço foi tomado muito apressadamente que eu queria voltar para o meu ninho quentinho da árvore, para desfrutar cada segundo que restava. mas o tempo não pára e a hora de check-out acabou por chegar. o homem telefonou para a recepção para pedir boleia, e eu despedi-me demoradamente do melhor quarto de "hotel" onde já estive. nem mesmo o 22º andar de madrid o consegue superar a casa da árvore.

ainda ficamos umas horas pelo parque. primeiro fomos dar um longo passeio por aquele cenário idílico, depois tivemos mais uma horinha no spa, e por fim, alinhamos numa iniciativa que estavam a promover por ocasião do dia da árvore. plantamos uma faia, em honra das faias de manteigas :)

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pode-se dizer que deixamos lá raízes. e prometemos voltar para acompanhar o crescimento da rapariga :)

depois de um "até breve" ao parque das pedras salgadas seguimos caminho. subimos até chaves, passando por todas as terrinhas cujo nome reconhecemos de rótulos de água gaseificada.

gostei bastante do coração de chaves. das ruas apertadas e das casas rústicas, do contraste das pontes, da pacatez do tâmega, da vista desafogada que se tem do castelo, dos parques. é uma cidade pitoresca, cheia de história, um postal vivo a cada recanto. tão agradável de visitar.

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ao fim da tarde seguimos em direcção ao destino do dia, tuizelo, já no parque natural de montesinho. sempre com paisagens de cortar a respiração no horizonte e muitas, muitas curvas. mal sabia eu que as curvas iam ser o prato dos dias seguintes…

a casa onde ficaríamos alojados nessa noite pode ficar para lá de onde judas perdeu as botas, mas foi um verdadeiro achado. perfeitamente enquadrada no cenário rural da pequena aldeia transmontana onde se situa. a decoração não podia ser mais castiça, totalmente rústica mas de um tremendo bom gosto. uma ode às grandes casas de fazenda do antigamente, quase que proporciona uma viagem no tempo. não bastasse o ambiente fantástico, como ainda fomos recebidos com uma hospitalidade quase desconcertante.

e como estava praticamente vazia pudemos escolher o nosso quarto. visitámos 4 ou 5 antes de decidirmos o eleito (era só o mais giro da casa toda).

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descobrimos que por ali janta-se cedo, e que apesar da vila de vinhais se intitular capital do fumeiro, não tem muitos restaurantes. tivemos uma certa dificuldade em encontrar sítio para jantar, mas lá filamos um lombinho de porco com batata-frita numa tasca. o cheiro do fumeiro, se havia, não o sentimos, para nosso grande desgosto.

* estadia patrocínada pela minha estimada conta bancária

 

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'Le me

tem idade suficiente para ter juízo, embora nem sempre pareça. algarvia desertora, plantou-se algures na capital, e vive há uma eternidade com um gajo que conheceu pelo mirc.

no início da vida adulta foi possuída pelo espírito da internet e entregou-lhe o corpo a alma de mão beijada. é geek até à raiz do último cabelo e orgulha-se disso.

offline gosta muito de passear por aí, tirar fotografias, ver séries e filmes, e yada yada, yada... é ler o blog ;)

bucket list

'Le liwl

era uma vez um blog cor-de-rosa que nasceu na manhã de 16 de janeiro, no longínquo ano de 2003, numa altura em que os blogs eram apenas registos pessoais, sem pretensões de coisa alguma. e assim se tem mantido.

muitas são as fases pelas quais tem passado, ao sabor dos humores da sua autora. para os mais curiosos, aqui ficam screenshots das versões anteriores: #11 #10 #9 #8 #6 #5 #4

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