The Martian

peeps be advised: pode haver spoilers neste post. mas não creio que tenha mais spoilers que o trailer, que basicamente resume o filme todo (e eu dei graças - a mim - por ter mantido distância dele, à luz desta inspiração divina que tive há uns tempos)

todos os anos, durante a época das trevas* corro a lista dos filmes anunciados para o ano que se segue no IMDB, e boto na wishlist aqueles que pretendo ver. quando tropecei no the martian, comentei com a descoberta com o homem e a resposta dele foi

 

"oh não, outro filme passado em marte"

 

é verdade, já são uns quantos.. o tema já se começa a esgotar. quantos mais filmes sobre o planeta vermelho consegue a humanidade aguentar?

entretanto meses passaram, o filme estreou e não liguei grande coisa, apesar de me aperceber que estava a ser bem recebido. depois aconteceu uma mobilização mandatória e lá arrastamos o coiro até ao cinema, num cinzentão fim de tarde de outubro.

sentei-me confortavelmente com um grande balde de pipocas no colo e um cachorro-quente na mão (hey, ainda não tinha almoçado, don't judge me!) sem saber absolutamente nada do que vinha dali, a não ser que era sobre um gajo que ficou esquecido em marte. provavelmente ia ser muito aborrecido, provavelmente ia ser outra decepção como aconteceu no outro filme com um planeta no título que tinha visto há uns meses..

mas pronto!

duas horas e vinte minutos depois, eu estava atordoada. o que é que raio era aquilo que eu tinha acabado de ver? um biopic? um documentário? parecia tão real.. tudo menos um filme.. e de sci-fi..

senti-me subitamente transportada para o futuro. aquilo aconteceu *mesmo* e o filme não é mais do que a narração dos eventos que sucederam àquela pobre alma, que teve o azar de ficar encalhada num deserto estéril, a milhões de quilómetros de casa e sem grandes chances de voltar a ver o azul da terra; a sua resiliência e determinação em sobreviver àquele tormento; e o seu extraordinário resgate. tudo aquilo fez pleno sentido, não tive que suspender a descrença para aceitar o que me ia sendo mostrado (ok, talvez lá para o final, num pequeno detalhe). acho que foi a primeira vez que um filme de sci-fi conseguiu arrancar-me tal sensação.

 

“BRING HIM HOME”

 

aliás, o que me pareceu menos credível naquela história toda não foram as missões tripuladas a marte (e aquela já era a terceira), não foi um gajo ter conseguido sobreviver lá sozinho durante ano e meio com recursos limitadíssimos, mas sim a quantidade ridícula de dinheiro que uma missão de salvamento daquela magnitude é coisa para custar ao bolso dos contribuintes. toda a tecnologia envolvida pareceu-me realista e muito em linha com o que já existe hoje em dia, sem grandes excessos ou artifícios.



muito bem disposto e divertido, o matt damon - actor que nem dou muito por ele - desarmou-me logo nos primeiros minutos e conseguiu manter-me coladinha ao ecrã, sem revirares de olhos (redimiu-se completamente de.. coisas como esta e esta). houve momentos tensos, houve momentos em que parecia estar tudo perdido, que me encheram a vista de água, e no fim, aquela sensação inexplicável de felicidade misturada com alivio, de quando tudo acaba bem. senti-me quase como se estivesse meio daquela massa humana que acompanhou e aplaudiu o seu longo resgate.

não há vergonha em admitir que eu sou o público alvo deste filme. porque gosto de histórias sólidas, despretensiosas e sem rodeios, porque gosto de piadas básicas, porque fico assombrada ao aperceber-me de que o instinto de sobrevivência aliado ao engenho da nossa espécie é de facto algo muito poderoso, porque gosto de finais felizes, e claro, porque sci fi é o meu género favorito.

e precisava de mais. oh se precisava de mais!

nessa mesma noite comprei o ebook e comecei a devorá-lo. é daquelas leituras que não se consegue desviar os olhos, apesar de ser absurdamente técnico, e obrigar a paragens constantes para tentar projectar aquilo que estava a ler (tinha a facilidade de ter visto o filme e conseguir fazer pequenas associações). só largava quando já não conseguia juntar as letras e perceber o significado da palavra.

há um trabalho de pesquisa tremendo naquelas páginas. tremendo não, insano! desde conceitos de astronomia, física (e daquela *bem* rebuscada), engenharia, mecânica, química, botânica... é incrível. a imaginação para construir aquele escape, transmitir o feeling que nada daquilo é ficção. e mais incrível é a linguagem acessível e super descontraída da narrativa, sem floreados e repleta de momentos de humor.

"my asshole is doing as much to keep me alive as my brain"


passados três dias tive que voltar ao cinema, aquilo não me saia da cabeça. o meu coração estava preso nas paisagens áridas (ainda que fictícias) de marte, e a minha mente encantada com os feitos da humanidade (que só serão realidade daqui por umas décadas). precisava de outra dose. e sai de lá exactamente com a mesma sensação de antes!

 


entretanto terminei o livro e achei a adaptação ao cinema muito bem conseguida. as personagens estão bem caracterizadas, o tom e o ritmo estão fieis, ocultaram e/ou modificaram alguns aspectos, uns que não iam adiantar grande coisa, outros que podiam ter sido incluídos mas que iriam alongar ainda mais o filme (diz que a versão blu-ray vai trazer 20mn extra YAY), numa altura em que já só queríamos ver o nosso herói a escapar de marte, e outros ainda que fariam o PG subir.

parte gira de se levar para o cinema a bagagem do livro (como levei da segunda vez), é que se conhece os pormenores excessivamente técnicos que o cinema poupou ao argumento a fim de não maçar a audiência, e a experiência ganha uma profundidade ainda maior (como a explicação toda do que envolveu preparar o terreno para plantar as batatinhas, ir buscar a pathfinder e mete-la a funcionar, ou a preparação para a grand tour até ao local da próxima missão).



a parte menos gira é que eu não. me. calo. com as comparações. é penoso ver um filme ao meu lado cujo livro li LOL

um dos aspectos que me pareceu ter levantado mais criticas foi o facto de não ter sido um thriller psicológico, focado do desespero da solidão. da minha parte só tenho a agradecer, porque sou pouco dada a dramas. gosto mais desta abordagem get things done. em vez de ficar encolhida a um canto a deixar-se consumir pela tragédia, a personagem principal está apenas concentrada numa coisa: em sair de lá viva e não tem mãos a medir quanto a isso. no filme ainda encaixam uns momentos de solidão e desgaste, coisa que no livro nem se lhe sente o cheiro.

"i'm gonna have to science the shit out of this"


se tivesse que implicar com algum aspecto do filme, acho que seria com a banda sonora (com excepção da disco music, pois claro), podia ser mais épica. no entanto reconheço que se soasse mais a ópera espacial, o filme teria outra dimensão, provavelmente uma que iria alterar a percepção da história e o efeito que é suposto surtir no espectador. 


mas adorei o ping que assinalava o registo do SOL, que se não veio do echoes de pink floyd, foi terrivelmente inspirado nele :D

btw, isto não acontece em marte... que pena!

* época compreendida entre dezembro a fevereiro, quando os dias são curtos e frios e eu não me apetece a sair de casa e tenho muito tempo livre para perder com tarefas inúteis.

20 de Novembro de 2015, às 01:56link do post comentar