Trilho dos Pescadores // dia 3

almograve > zambujeira do mar

a primeira coisa que fiz mal abri os olhos, foi pegar no telemóvel ver que autocarros havia que me levassem dali até próxima etapa. queria lá saber.. não aguento outra tareia daquelas, ainda por cima a maior delas todas.. argh!

arrastei-me para fora da cama para irmos tomar o pequeno-almoço, tinha umas olheiras tão fundas que roçavam no chão. pelo caminho da cantina, encontro imediato de 3º grau com um amigo (olá rui! se leres isto dá sinal de vida :D) emigrado que não via há anos. sabia que ele andava com intenções de fazer uma visita à pátria, mas jamais sonhava encontrá-lo ali. ele há coincidências do caneco!

na cantina tivemos bastante tempo na conversa com a funcionária. falámos de muita coisa, da experiência que estavamos a ter com o trilho, das enchentes do verão, da juventude desajuizada, da praia secreta dos locais, e também sobre a etapa do dia, que era das mais bonitas, pela duna vermelha e não só.

e eu ganhar um sentimento de culpa enorme por querer deixá-la para outra ocasião. a duna vermelha isa, tu queres tanto conhecer a duna vermelha.. vá lá corpinho fofinho, colabora com a vontade tua dona.. por favor!!

…e mas mais uma vez fui buscar forças nem sei onde (mas asseguro que nenhuma alma foi prometida ao demo em troca de um punhado de energia loll), calcei a botas diabólicas e meti a mochila às costas. o acordo era de fazer apenas metade do caminho, e em cavaleiro apanharíamos um táxi até à zambujeira.. mais que esses 10km recusava-me a andar.

foi a etapa que começamos mais cedo, por volta das dez e meia da manhã. de caminho passamos por uma pequena mercearia, onde nos abastecemos apenas de água. o almoço seria em cavaleiro, num restaurante muito bem recomendado.

fomos nas calmas.. mesmo nas calmas. as paisagens ali são fantásticas e somos obrigados a pausar para dar-lhes a atenção que merecem. de facto, tinha sido uma pena perder aquilo.

um dos pormenores que mais estava a gostar no trilho eram as subtis diferenças na vegetação, na cor e textura da areia, e no recorte das arribas, à medida que íamos progredindo. só isso era suficiente para querer levar aquela provação até ao fim.

apanhámos um grupo de 3 senhoras duas delas já bastante entradotas que vinham no nosso encalço. tinham o dobro da minha idade e dobro da minha genica. que vergonha pá, que vergonha!

como nos demoramos às voltas pela duna, o tal grupo apanhou-nos e o homem ainda se ofereceu para lhes tirar umas fotos e meter conversa. e guess what? suecas. por falar em suecas não vimos as nossas "vizinhas" nesse dia.

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o homem ia-se a passar com uns cogumelos de aspecto sinistro que íamos encontrando ao longo do caminho, e sempre que via um, parava para fotografá-lo. lembro-me, quando era pequena e ia prá horta com os meus avôs, de andar ao pontapé com cogumelos daqueles porque largavam uma nuvem de pó muito engraçada (mais engraçado seria poder voltar a trás no tempo e dar um pontapé em mim mesma, para aprender a deixar a natureza sossegada :P).

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o meu pai acha que são "bufas de velha", o homem diz que são "ovos" de facehugger, eu digo que são os graboids do tremors. se alguém por aí saber o nome técnico e quiser partilhar, fico agradecida :)

cheguei ao cavaleiro com dores horrendas nos pés. apetecia-me atirar as botas pela falésia a baixo como fez a personagem da reese no wild. fónix... mas! contra todas as minhas expectativas, tinha conseguido aguentar-me até lá. not bad.

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restaurante encontrado à primeira graças à pesquisa e aos mapas no telemóvel yay isto quando estamos nas couves, todos os centímetros de chão que se conseguir poupar, são preciosos!

pedi lagartos de porco preto e o homem migas com rojões. estava esfomeada e necessitada de comida potente.

isa antes da pratada de lagartos: "depois do almoço chamamos o táxi, ok?"

isa depois da pratada de lagartos, batatas-fritas e uma mousse de chocolate caseira (hey, no campo de batalha luta-se com todas as armas que se consiga deitar as unhas!): "bom, vamos chegar tarde, mas que se lixe.. bora nessa!"

fizemos ali uma certa batota. como já conhecíamos as redondezas do cabo sardão de outras andanças, cortámos 1km ao trilho, indo directos ao farol. à nossa esquerda, a zambujeira aguardava-nos. ali a umas quatro horas. hopefully...

e na segunda parte da etapa o universo curvou-se perante mim e numa voz ribombante de trovão, disse:

"já não posso com as tuas lamentações mais ao raio da areia, toma lá uma estrada de areia terra batida e NEM MAIS UM PIU!"

AH AH AH AH fixeeeeee!

...ou então não : /

foram 10 longos kms, a direito, sem declive, sempre a fazer o mesmo movimento.. às tantas começamos a desejar piso irregular para que os pés e pernas pudessem quebrar aquela monotonia.

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só sei que nesta altura, andar com uma mochila às costas era o menor dos meus males.. putas das botas pá!! e os meus sapatinhos de caminhada tão confortáveis e levezinhos que são, abandonados em casa, sozinhos, num armário escuro. não se faz, não se faz..

até o homem, que até então vinha fresco que nem uma alface, começou-se a queixar com dores no joelho rombo dele. e isso não eram boas notícias.. as paragens começaram a ser mais frequentes para fazer alongamentos a ver se aquilo aguentava até ao fim sem stresses.

mas as vistas.. as vistas valem por todas as dores!

aquela rocha torcida das falésias encanta-me de sobremaneira.. são marcas evidentes da história atribulada do planeta, e das sucessivas transformações ao longo das eras. é incrivel o que está registado ali naqueles rochedos. 

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(as fotos não lhes fazem justiça : / )

e o mar ali a bater incessantemente, os pescadores a arriscar a vida todos os dias naqueles paredões íngremes e escarpados, para irem ao peixinho e ao marisco. é insano. insano!!

depois daquela estopada que já durava há 3 horas, deparamo-nos com um belo dum desafio: descer quase a pique até ao porto de pesca.. para logo de seguida tornar a subir.

NÃOOOOOOO..

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(pequena pausa para trollar a sis muhahaha)

quase a chegar ao nosso destino, assistimos a um pôr-de-sol como manda a lei, daqueles que tingem o céu com tons quentes de laranja e rosa, e que nos deixam suspensos perante a perfeição do universo.

adicionar aqui o som do mar.

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chegamos à zambujeira do mar todos estropiados.. o homem vinha coxo e a implorar por gelo, eu fascinada por ter a parte de trás dos pés inchada, ali na zona do tendão de aquiles. não sabia tal coisa ser possível sequer. 
doía-me tudo da cintura para baixo.. andava desde há dois dias a sonhar com uma banheira cheia de água quente mas não tivemos essa sorte.

mas hey.. CHEGAMOS À ZAMBUJEIRA. VIVOS!!

ou quase lol


mas isso agora não interessava nada! tínhamos conquistado três das quatro etapas e só isso era suficiente para estar eufórica!


mal cheguei ao quarto meti-me debaixo do chuveiro, e AHHHHHHH TÃO BOM.. depois creme gelado nos joelhos e tendões para ver se acalmam os ânimos. o homem precisava de armas mais pesadas e desceu para xaretar no congelador da cozinha comum. voltou de lá todo contente, com um pack de geleira - as pequenas coisas que nos deixavam radiantes muhahahah


dali ao restaurante onde fomos jantar eram praí 150 metros e foi um suplício atravessá-los. tínhamos os dois com um andar novo e o do homem era tão ridículo que eu já chorava a rir, parecia o asimo :D


engraçado.. bateu-me um apetite tão voraz naquela noite que não conseguia parar de comer. entradas. prato principal. sobremesa..parecia que não via comida há meses!

..ou então era mesmo porque a comida estava deliciosa hi hi hi

eu mereço, eu mereço


o segundo encontro imediato de 3º grau do dia. ter a sensação que conhecia a pessoa que estava na mesa ao lado mas não tinha a certeza. o homem confirmou, uma vizinha que não via desde o verão, até julgava que se tinha pirado, mas não. andava a passear-se pela costa vicentina com os amigos, e ficou chocada quando lhe dissemos que andávamos a fazer o mesmo. a pé! lol


a noite estava fria, e já que a senhora do alojamento tinha acedido a lareira da sala para os seus ilustres hóspedes poderem desfrutar de um serão agradável, aproveitámos. 
estivemos por lá enquanto o homem se abastecia de séries. uma vez que o meu telemóvel estava a ser monopolizado entretive-me a ler uma revista.


entretenimento adquirido, subimos, que eu estava cansada e dolorida e queria fechar a loja. podia ser que uma boa noite de sono me curasse miraculosamente as maleitas :D

 

caminhar para o dia 4 >