Ali prós lados do Beato

há umas semanas fizemos uma viagem debaixo de um temporal medonho, e ao passar por cima dos lençois de água que se formavam na estrada, o sacana do carro apetecia-lhe dançar. ficou decidido que tava na altura de levar sapatos novos.

pelo estado da coisa, seriam os quatro. uns porque estavam carecas, apesar de "só" terem 4 anos e 75 mil km, e os outros que apesar de ainda terem bom aspecto, já levam 7 anos e 120 mil km no cardado.. pneus é um tema sério, tenho um medo brutal de ter um acidente causado devido a um rebentamento, ou falta de aderência.

decidimos o modelo e tratei de identificar umas quantas oficinas para pedir orçamento, já a contar que o entreposto não tinha preços interessantes. ao homem coube a tarefa de pedir os orçamentos. meia hora depois tínhamos três valores muito díspares, sendo que um deles não dava grandes hipóteses aos outros.

o cascas vai a revisão, e ficamos a saber que só é necessário trocar dois, os outros ainda estão ali pras curvas. fuck yeah!! e como esperado, não tinham preço para nós, substitui-los lá ficava em quase 80€ mais caro que o nosso melhor orçamento, PQP!!

tão lá marcamos o serviço, e no dia seguinte deixei o homem na piscina e fui tratar do assunto. tive uma experiência deveras interessante naquela manhã.

cheguei uns minutos antes da hora, a tasca ainda não estava aberta. fiquei à espera no carro, num sitio onde não era suposto estar estacionada, mas os dois policias que estavam a uma dezenas de metros de mim, não me mandaram sair dali. a área estava toda vedada ao trânsito, o motivo não descobri. entretanto aparecem dois homens em cena, um com uma certa idade, e outro mais novo, e começam agilmente a abrir as portas do negócio. percebi logo porque é que só funcionam com marcação, são apenas dois mecânicos, e o espaço é realmente pequeno, só cabe um carro lá dentro. ainda assim, parece cuidado, nada a ver com aquela oficinas escuras e gordurosas, e cheias de tralha que até assusta entrar.

nisto, o senhor mais velho vem ter comigo, assumindo que sou a marcação das nove e meia. confirmo. sem mais conversas, tira-me o carro e leva-o para a pequena garagem.

fiquei à porta. entretanto uma senhora já duma certa idade vem ter comigo, a pedir-me para ir lá dentro dar umas informações para o seguro dos pneus. dou dois passos até ao pequeno cubículo que funcionava como escritório, onde estava uma rapariga mais nova, e começo a responder às perguntas. a azafama em redor do carro era intensa, e muito bem orquestrada.

pela familiaridade do trato entre os funcionários, apercebo-me que as duas pessoas mais velhas são marido e mulher, e a rapariga que estava de volta da papelada era a filha. só não apanhei se o homem mais novo era filho ou genro. ah.. got it, é um negocio familiar! que giro, pensei que este tipo de negócios já não existia em família, pelo menos em lisboa... mas... não parecia que estava em lisboa, mas sim numa terrinha qualquer. é o encanto dos bairros, perdemos a percepção que estamos numa grande cidade. pairava naquela desafogada praceta um sossego desconcertante. ouvia-se tão bem a passarada a chilrear, que enchia a alma. fechava os olhos, a absorver os raios de sol que conseguiam furar pelas nuvens, enquanto me deliciava com a melodia das aves.

enquanto esperei pelo serviço, a oficina recebeu várias visitas, mas nenhuma delas humana. primeiro apareceram dois cãezitos, daqueles que cabem num bolso (pequinês, i'm thinking), sem dono à vista. pararam à porta, com ar muito sisudo e atento, de quem estava ali certificar-se se ninguém metia a pata na poça. uns minutos depois piraram-se sem prestar cavaco a ninguém.

pouco depois aparece um segundo cão, de porte médio e pêlo raso, muito elegante, e muito mais simpático que o par anterior, também sem dono à vista. meteu-se com o mecânico sénior, que fez uma grande festa quando o viu, e mandou-o ir ao pequeno escritório cumprimentar o resto das pessoas. bem mandado, o canito contornou o carro e foi lá ter. mal entrou foi tratado como realeza, todo apaparicado. pouco depois, também bateu retirada. provavelmente tinha outras quintas para ir visitar naquela manhã.

logo de seguida entra pela oficina a dentro, como quem é rei e senhor do pedaço, um gato laranja, de pêlo curto e esguio. sabia exactamente onde tinha que se dirigir - ao pequeno escritório, onde foi recebido de forma bastante efusiva. deu e recebeu mimos, e andava por lá como se aquilo fosse tudo dele, como é apanágio dos gatos. entretanto decorreu um debate ente os funcionários, sobre se o bicho havia de receber ração ou saqueta. depois de comer, ali ficou, no escritório, enfiado dentro de uma caixa.

nenhum destes animais pertencia à família, mas eram recebidos como família e tratados com requintes de realeza. estas coisas dão-me apertos no coração.

o serviço demorou cerca de meia-hora, e foi absolutamente eficiente e profissional. e o preço foi muito em conta. saí de lá com um sorriso rasgado, e não foi só porque parecia que vinha a conduzir um carro novo (pneus novos é como ténis novos, é uma sensação de leveza do caraças). foi tudo o resto. do ambiente, às pessoas, aos visitantes de 4 patas, ao serviço, e ao preço.

also, espero que a nossa opção de pneus tenha sido feliz.

22 de Abril de 2018, às 19:15link do post comentar