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lost in wonderland

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Final dos tratamentos

Setembro 04, 2019

com o fim das sessões de radioterapia, terminava o grosso do berbicacho que tinha começado em maio. 

no entanto, não tive a reacção que estava à espera. em vez de ter ficado eufórica por finalmente ter metido aquilo tudo para trás das costas, não foi bem uma sensação de alívio que senti.. foi mais de vazio.. ou nostalgia.. ou qualquer coisa pelo meio.. passei quatro meses de idas quase diárias ao hospital, numa roda viva de consultas de diferentes especialidades médicas, de exames e tratamentos marados, de estar rodeada das atenções de pessoas totalmente empenhadas em tratar-me da saúde.. e de repente, tudo aquilo tinha cessado. se não tive tempo de me adaptar à enxurrada de coisas que me entraram na vida a uma velocidade supersónica, também não tive tempo quando elas saíram quase à mesma velocidade.. e andei ali uns dias a sentir-me um bocado à deriva.

claro que ia continuar a ter consultas e exames, mas nada comparado àquela frequência frenética.

pelo fórum, fui tropeçando nalguns relatos de pessoas que descreviam a fase de pós-tratamentos em tons de vazio, abandono, preocupação, e até depressão. houve alguém que descreveu a coisa como ansiedade de separação, a mim fez-me bastante sentido. vai daí, conclui que era mais uma das muitas fases que estão associadas à experiência da doença. nada que umas férias não curassem!

nesta altura, ainda tinha as sequelas da biopsia e da cirurgia bastante pronunciadas. ao hematoma da primeira, juntou-se o hematoma gigante da segunda, e o resultado era medonho. tinha mais de metade da pele da mama tingida numa mistura foleira de cores, entre amarelos, verdes, e roxos. o cirurgião plástico tinha-me dito que o hematoma foi mais extenso devido à reconstrução com retalhos, pois houve muita mexidela lá dentro, e que ainda ia levar algum tempo até desaparecer. a sorte é que nesta altura, já nada destas merdas me dava a volta ao estômago lol

a elas, juntou-se o escaldão da radioterapia, que tal como um escaldão comum, estava a começar a escurecer a zona exposta à radiação. a pele iria demorar bastante tempo a recuperar do “bronzeado” da radiação. um ano depois, ainda cá está, juntamente com a colecção de sardas e o look david bowie. this too shall pass.

a cicatriz praticamente não se nota, ficou dissimulada junto ao contorno da aréola. serviço 5 estrelas, foi o que foi. em algumas zonas, ainda não recuperei totalmente a sensibilidade da pele. mas se não recuperar, não me é coisa que me incomode. 

restava-me sobreviver aos 5 anos de hormonoterapia.

detalhe curioso.. durante aqueles quatro meses, nenhum dos profissionais de saúde com que me cruzei neste processo todo, médicos, enfermeiros, técnicos, gestores, e até dentistas, usou a palavra "C". neoplasia.. carcinoma.. mas nunca a palavra "C". gostei disso. sempre detestei a palavra, e sempre me custou a usá-la. é feia. dá-me arrepios.. mas depois habituei-me.

7 comentários

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'Le me

tem idade suficiente para ter juízo, embora nem sempre pareça. algarvia desertora, plantou-se algures na capital, e vive há uma eternidade com um gajo que conheceu pelo mIRC.

no início da vida adulta foi possuída pelo espírito da internet e entregou-lhe o corpo a alma de mão beijada. é geek até à raiz do último cabelo e orgulha-se disso.

offline gosta muito de passear por aí, tirar fotografias, ver séries e filmes, e (sempre que a preguiça não a impede) gosta praticar exercício físico.

mantém uma pequena bucket list de coisas que gostava de fazer nos entretantos.

'Le liwl

era uma vez um blog cor-de-rosa que nasceu na manhã de 16 de janeiro, no longínquo ano de 2003, numa altura em que os blogs eram apenas registos pessoais, sem pretensões de coisa alguma. e assim se tem mantido.

muitas são as fases pelas quais tem passado, ao sabor dos humores da sua autora. para os mais curiosos, aqui ficam screenshots das versões anteriores:
#12   #11   #10   #9   #8   #6   #5   #4

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