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lost in wonderland

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Ai a prevenção, a prevenção

Outubro 30, 2019

vou ser mais uma que neste dia nacional da prevenção do cancro da mama, vos chagar a cabeça do quanto importante é manter um olho atento na saúde dessa parte tão bonita e tão cheia de simbolismo do nosso corpo, que são as mamas.

a prevenção [primária] consiste numa série de hábitos que podemos adoptar, para a baixar nosso risco de vir a ter cancro da mama. está mais do que provado que, excesso de peso, inactividade física, dieta pouco saudável e consumo de álcool e tabaco são factores que potenciam o desenvolvimento de vários tipos de cancro. a bem da nossa saúde, cabe-nos a nós, alterá-los.

isto não é novidade para ninguém, estamos cansados de saber isto, até porque se tornou numa fonte inesgotável de matéria para os meios de comunicação, especialmente os sensacionalistas, que produzem artigos sobre prevenção do cancro em barda.

não questiono, de modo algum, a importância da prevenção.. mas confesso que a minha experiência com o cancro da mama deixou-me um bocado sensível com este tema. agora quando me aparecem à frente artigos com títulos do género "10 alimentos que ajudam a prevenir o cancro" ou "alimentos anti-cancro", ou "15 hábitos que ajudam a reduzir o risco de cancro", para além de ignorá-los completamente, fico um bocado irritada..

irritam-me porque creio que este tipo de abordagem é demasiado ligeira, e não educa bem a população a respeito da doença (mas sintam-se à vontade para mudar o meu ponto de vista). uma pessoa faz tudo o que lhe dizem para prevenir o cancro, e no fim, é surpreendida uma sarna para se andar a coçar durante uns tempos. e depois a pessoa fica angustiada, a questionar-se o que é que raio andou a fazer de errado.. será que não comeu mirtilos suficientes? será que devia ter bebido batidos verdes? será que as 4 horas por semana que passa no ginásio é pouco? pois..

é extremamente importante, para prevenirmos esta - e outras doenças também (por ex. cardiovasculares e diabetes), mantermos um estilo de vida saudável:

  • evitar o sedentarismo, e praticar exercício físico regularmente
  • manter um peso adequado
  • ter uma alimentação equilibrada e saudável
  • não fumar
  • limitar o consumo de bebidas alcoólicas
  • evitar o stress
  • não apanhar sol nas horas de maior intensidade, e mesmo assim, usar sempre protector solar

isto é o básico, e existe evidência cientifica que garante que muitos cancros podem ser evitados apenas com alterações ao estilo de vida... mas isto só não chega. porque as pessoas podem ficar convencidas que, se levarem um estilo de vida e alimentação saudáveis, não ficam doentes.. e não é bem assim. para além de existirem vários pequenos factores que nem sempre conseguimos controlar (por ex, gravidez tardia ou não ter filhos, não ter amamentado, ter tomado contraceptivos hormonais ou terapia hormonal de substituição), existem outros que estão completamente fora do nosso controlo (por ex, menstruação precoce e menopausa tardia, tecido mamário denso, e factores genéticos).

e também porque à medida que vamos envelhecendo, o organismo vai perdendo a capacidade de se regenerar, causando erros genéticos aqui e ali, cada vez com mais frequência. e o nosso sistema imunitário, por mais fortalecido que esteja devido aos nossos cuidados, nem sempre consegue dar conta de todas as ameaças, sobretudo se forem tão sorrateiras como é o caso do cancro.

bottom line, não existe forma de nos prevenirmos *realmente* contra o cancro. tal como não existem dietas, nem super alimentos ou suplementos, que ajudem o sistema imunitário a eliminar as células cancerígenas sozinho.

por isso mesmo, torna-se necessário vigilância constante. conhecer bem o corpo, e suspeitar de qualquer alteração repentina. é imprescindível fazer o autoexame à mama uma vez por mês, mas nada substitui uma ecografia e/ou mamografia de rotina. a mamografia pode parecer um exame assustador, mas ter as mamas prensadas durante alguns segundos, a cada um ou dois anos, não é assim tão horrível como isso, é só desconfortável, e pode poupar a chatices tão maiores

fazer consultas e exames de rotina e participar nos rastreios é fundamental para apanhar a doença em estados iniciais. um diagnóstico precoce da doença pode fazer toda a diferença no prognóstico, pode inclusive evitar cirurgias mais extensas, e tratamentos longos e agressivos como a quimioterapia. 

e perdoem-me a franqueza.. mas não fazer exames de rotina com medo daquilo que podemos vir a encontrar, é uma desculpa idiota.

estima-se que nos últimos 30 anos, a prevenção, diagnóstico precoce e tratamento do cancro da mama reduziram a taxa de mortalidade em cerca de 35% dos casos. isto são as boas notícias, que podem (e devem) servir de encorajamento para sermos pro-activas na prevenção desta doença.

love your boobies

leitura recomendada:

O que provoca o cancro da mama? O que sabemos e do que suspeitamos

Programa de Rastreio de Cancro da Mama

[Programa de Rastreio de Cancro da Mama] Resposta às suas Perguntas

Mamografia: porque é tão importante

The Cancer Atlas: Risk factors

WCRF: Cancer prevention recommendations

e um vídeo (que já tem alguns anos, mas que continua bastante actual e está muito bom), para quem não quer perder muito tempo com leituras pesadas:

Prevenir o cancro da mama



REFERÊNCIAS:

WHO: Breast Cancer: prevention
WHO: Breast Cancer: early diagnosis
ASCO: Breast Cancer: Risk Factors and Prevention
European cancer mortality predictions for the year 2019 with focus on breast cancer
Decades-long drop in breast cancer death rate continues
The benefits and harms of breast cancer screening: an independent review
Delay in Breast Cancer: Implications for Stage at Diagnosis and Survival
Role of physical activity in onset, prevention and treatment of human neoplasms
Weight Management and Physical Activity for Breast Cancer Prevention and Control
Cancer Research UK: Reports that cancer is ‘mainly bad luck’ make a complicated story a bit too simple
Cancer Research UK: Food controversies 
What Are Superfoods and Are They Really Super?

Outubro Rosa

Outubro 24, 2019

a tita decidiu dedicar esta semana a falar sobre a importância da prevenção do cancro da mama no seu blog, e cravou-me uma entrevista, sobre a minha experiência pessoal. porque considero a prevenção desta doença algo fundamental, saltei logo para o comboio.

gostei bastante de responder às questões que me colocou, que considero bastante relevantes no contexto da prevenção e não só. saiu um bocado grande... mas quem me conhece, já sabe o que a casa gasta lol

obrigada pela oportunidade, tita 😘

Follow up

Outubro 09, 2019

dois meses após terminar a radiação, tive 3 consultas de seguimento:

radioterapia. a médica de tinha pedido um raio-x ao tórax e análises. tudo dentro dos paramentos normais. nada de reacções esquisitas na pele devido à radiação. aliás, a pele estava com muito bom aspecto, provavelmente porque mantive o regime de hidratação até a esta altura (e devia ter continuado).

cirurgia plástica. (tal como eu) o médico está bastante contente com o resultado do seu trabalho. não me importava nada que ele me desse um jeitinho na gémea, que anda toda invejosa.. é ridículo, a mama operada está com melhor aspecto que a outra. mais firme e cheiinha. ele diz-me que eventualmente vai desinchar, e provavelmente até ficar mais pequena que a outra. tou para ver. 

a nódoa negra.. ou melhor, amarelada gigante que resultou da cirurgia ainda não desapareceu.

oncologia. sem nada de especial a reportar. a médica só me quer passar análises uma vez por ano.. eu queria a cada seis meses, humpf..

seis meses pós-radioterapia,

eis que a agitação regressa: consultas, e mais consultas. e exames. eco pélvica, mamografia (passei finalmente a BIRADS 2, YAY!!), eco-cardiograma com doppler para fazer despiste de toxicidade do tamoxifeno e radiação no coração, e endoscopia alta, por causa das náuseas provocadas também pelo tamoxifeno. tudo nos trinques.

se há coisa que esta provação me dá (em grande parte culpa minha, por causa das cenas que leio lol), são dúvidas. carradas de dúvidas. algumas bem parvas.. mas quando é a saúde que está na linha, vale tudo. especialmente se tivermos sorte em ter médicos abençoados com toneladas de paciência.

na consulta de senologia, aproveitei confirmar algo. já tinha ouvido a palavra "curada" na minha direcção umas quantas vezes, mas como eu sou como são tomé (ver para crer), associar a palavra "cancro" a "cura", é coisa que levo com reservas.

então como é, fiquei mesmo curada disto, ou é melhor andar atenta porque pode-se ter soltado práqui alguma célula marada com tanta mexidela, e neste momento estou "sem evidência de doença"?

a médica assegurou-me que daquele CDIS, extraído com margens limpas, seguido de radioterapia, para garantir que qualquer célula maligna foi eliminada - que sim, que fiquei curada. 

fixe, tão este foi cos porcos. mas nada me garante que não venha a ter mais para me entreter no futuro, nas mamas (e por causa disso mesmo é que estou a fazer hormonoterapia), ou noutra parte qualquer do corpo - até porque radioterapia e a hormonoterapia são ambas cancerígenas. 

também quis saber se devia ter atenção especial aos sinais na zona irradiada. nem por isso, a vigilância anual que já faço é suficiente. e já agora, se pelo facto da pele estar sensível por causa do tamoxifeno, se podia ter problemas com exposição solar. diz que não. que a sensibilidade é mais uma sensação que outra coisa coisa qualquer.

as consultas de senologia passam a anuais.

entretanto, porque me queixei de algumas dores quando estou na amplitude máxima de movimento do braço esquerdo, sou reencaminhada para fisiatria. a médica desta especialidade elogiou o trabalho do cirurgião na mama, e a postura, que atribuí aos esforços da PT. 15 sessões de fisioterapia, para tentar libertar o músculo peitoral das fibroses provocadas pela radioterapia.

oncologia. a médica ficou preocupada com as queixas do aparelho digestivo, mas de resto tudo ok. elogia-me o peito, diz que nem parece que fiz radioterapia.

um ano pós-cirurgia, 

cirurgia plástica. a moça operada continua mais arrebitada que a gémea, mas o médico diz-me que estão muito idênticas, não vale a pena fazer ajustes na outra.. bah!!

recebi alta desta especialidade.

oncologia. a médica também está muito contente com a recuperação da cirurgia, e sucesso dos tratamentos. a minha reacção ao tamoxifeno já deixou de lhe dar preocupações. as consultas passam de 3 para 6 meses.

Efeitos secundários do tamoxifeno II

Setembro 25, 2019

ponto de situação: ainda não entrei na menopausa, mas porque tomo tamoxifeno, é como se lá estivesse1. então, tenho o melhor dos dois mundos - os agradáveis (NOT!!!) sintomas da menopausa, e a visita mensal daquela senhora de vermelho, que se via nos anúncios de pensos higiénicos há uns anos. muito fixe.. só que não!

nada nem ninguém me preparou para esta treta.. tem sido uma autêntica aventura de auto descoberta. o copo meio cheio, é que paro a terapia aos 43, e quando a menopausa a sério chegar, já sei exactamente com o que contar (vou só ali enrolar-me num canto em posição fetal, chorar um bocadinho enquanto deixo esta realização assentar) muhahahaha

permitam-me só mais um desabafo, antes de continuar com o tema do post… a sério que passamos 30 anos a verter sangue pelas partes baixas uma semana por cada mês, para a seguir dar nisto, durante sabe-se lá quanto tempo? em que cu tinha a natureza a cabeça enfiada, para achar que isto era uma boa ideia?? 😡

ok, tão bora lá saber é que eu tenho lidado com esta história (e é provavel que exista algum TMI, you've been warned lol)!

ondas de calor (ou afrontamentos)

não tem nada que saber, nem tenho grandes stresses com isto. visto-me com roupa larga, para andar arejada, e por camadas. quando le wild hot flash appears, começo logo a largar roupa. se estiver em casa, dispo-me toda, abro as janelas, molho-me ou tomo banho com água morna, o que for preciso. duram cerca de 5 minutos, e acontecem várias vezes ao dia.

suores noturnos

consigo contar pelos dedos de uma mão, as vezes que não acordei toda suada no último ano. é mais chato durante o inverno, porque durmo vestida e acordo sempre com a roupa encharcada, e colada ao corpo. como se isso não fosse desagradável o suficiente, suar muito tem aquele detalhe do (mau) odor corporal... e não sei quando a vocês, mas... eu não sou fã do meu odor corporal, o meu nariz considera-o bastante ofensivo. o homem diz que é só impressão minha, mas eu acho que ele está a desdramatizar a coisa. às vezes tomo banho antes de me deitar, e mesmo usando um gel de duche anti-bacteriano, é o mesmo que nada. na manhã seguinte, parece que estive o dia todo a assentar tijolos debaixo de sol. enfim...

se antes uma t-shirt aguentava umas 4 ou 5 noites, agora chegaram a ser duas por noite. calças de pijama ainda duravam mais, e agora é um par lavado todas as noites. roupa da cama, nem uma semana aguenta. não é nada ecológica, a história da menopausa..

como acordar com a roupa ensopada em suor e a mandar pivete não é fixe, fui à procura e soluções. tipo, pijamas para senhoras na menopausa. não há grande oferta, e o que encontro é caro e difícil de comprar (não acredito que não exista mercado para este tipo de produtos, cacete!)... mas era um dado assente que tinha que largar o algodão, então fui à procura de alternativas. 

depois de uma experiência um bocado falhada com umas t-shirts em viscose da HM, trouxe um par de t-shirts airism de gajo da uniqlo para experimentar, e gostei bastante delas. são ultra leves, absorvem o suor da pele, são anti-odor, secam muito rápido, e são baratas. até posso acordar toda suada, mas ao menos não estou desconfortável. também experimentei uma em lã de merino, que consegui encontrar na decathlon, mas o tecido não é o mais macio. uma t-shirt em lã de merino de qualidade decente custa os olhos da cara.. mas se for tão boa como dizem, caguei pró preço!

no inverno passado usei dois edredões de verão na cama, para não morrer de calor, nem de frio. o próximo provavelmente vai ser igual. durante o verão, costumava usar um edredão (fresco, claro), mas tive que o tirar da cama, e ficou só o lençol de cima. porque ter o "termostato desregulado"2, significa que pode estar um calor do caraças, mas eu sinto frio e enrolo-me toda durante o sono, e depois farto-me de suar. o homem tava sempre a gozar comigo. uma destas manhãs disse-me,

"tás toda enrolada no edredão, pareces um tampão!"

anos… anos de dedicação...

infelizmente ainda não encontrei solução para a roupa da cama, e dormir enrolada em lençóis húmidos é tudo menos confortável. o ideal seria um edredão que tivesse uma boa regulação térmica, para mim nem suar sequer.. mas não sei se tal coisa existe, e não me apetece a andar a gastar guito em experiências falhadas. o mesmo aplica-se aos lençóis. mas estou tentada a experimentar lençóis de bambu. a ver vamos.. é provável que volte a este tema mais tarde.

peso, retenção de líquidos e fadiga

com a quantidade de água que passei a beber, não admira que ande com retenção de líquidos (kidding, eu sei que não tem nada a ver!!)...

eu como muito pouco, por isso, das duas uma.. ou a balança tá avariada, ou a retenção de líquidos é mesmo uma cadela. a sério, tenho 2kg a flutuar há meses.. e celulite a começar a dar o seu ar de graça, humpf!

também pode ser simplesmente o metabolismo que desacelerou, e altera o funcionamento normal das coisas. praticar exercício físico é um mandamento que estou sempre, sempre, sempre a ouvir da minha médica. e eu, que já tinha assim uma *certa* preguiça para fazer exercício físico, sinto que a vontade de fazer exercício também desacelerou.. deve ser porque tenho menos energia. a única coisa a fazer, é combater a leseira (se ao menos fosse tão fácil fazê-lo como é dizê-lo...)

manifestações cutâneas

fazer depilação com cera roll-on tornou-se insuportável, parece que me estão a queimar com um ferro em brasa. e nisto tenho 100% de certeza no que digo: no fim-de-semana antes da cirurgia, fui a uma esteticista nova e adorei o serviço. tanto, que voltei lá de segunda vez, e continuava impecável. entra o tamoxifeno, e à terceira vez já não correu tão bem, foi um *bocado* doloroso. a quarta vez foi uma sessão de tortura.. e era sempre a mesma pessoa, a mesma máquina, e a mesma cera.. a seguir experimentei fazer em casa, com o equipamento que usei durante 10 anos, com o mesmo resultado doloroso... mas como o pêlo também ficou mais ralo e preguiçoso, comprei uma máquina de depilar e estou satisfeitíssima com ela. problema resolvido!

para as coceiras, creme anti-prurido tem evitado que eu esgravate as pernas e os braços até ficar em carne viva. tenho usado da la-roche posay (este e este) e da uriage, e tenho bons resultados com ambos. aplico, e passou!

dores de cabeça

porque desconfio que se devem à tensão muscular, tento fazer libertação miofascial3 nos músculos trapézios, com o equipamento de tortura (rolos de espuma e bolas com bicos) do homem. se a dor continuar a melgar, ponto um saco de gelo em cima da cabeça. se não for suficiente.. benuron prá carola!

diria que é neste departamento onde a prática de yoga traz mais benefícios, porque ajuda a manter os músculos relaxados, e o corpo menos tenso.

perturbações no sistema genito-urinário

lube (lots of it)
, gel para higiene intima, cenas em cápsulas e pipetas de tomar por baixo, e o salva-slip certo, atenuam grande parte dos problemas. o melhor mesmo é meter le ginecologista ao barulho. não se acanhem, não escondam nada, perguntem tudo!!! 

[ quem quiser aprofundar o tema, este guia (inglês) é bastante informativo ]

perturbações gastrointestinais

se duas ou três horas após o jantar começar a sentir-me enfartada, começo a dar-lhe na água com gás (os litros de água com gás que se consome nesta casa agora), e se der para isso, vou dar uma volta ao quarteirão, como a médica me mandou. se não for o suficiente para meter o estômago a mexer, recorro à medicação SOS que obriga o sacana a fazer o que é suposto.

descobri que dormir de lado, sobre o meu lado direito, minimiza o desconforto no estômago.

quando ao problema da "canalização", cheguei à conclusão que fruta funciona melhor que cereais de farelo desenxabidos. especialmente kiwi.. acontece que eu não gosto de kiwi (dá-me vómitos, a sério).. então faço salada de fruta, assim passa despercebido.

resumindo e concluindo: podia ser pior.. muito pior. existem várias formas de dar a volta aos stresses provocados pelos efeitos secundários. o importante é fazer tudo o que tá ao nosso alcance para não deixar afectem a nossa qualidade de vida. de resto, keep calm and carry on with tamoxifen!

porque não me compete a mim (que não tenho formação na área) dar dicas sobre como lidar com problemas médicos, aqui fica um artigo (inglês) que faz um óptimo trabalho a explicar como gerir os sintomas da menopausa.


 

1 o tamoxifeno não causa menopausa precoce, mas pode provocar sintomas associados a ela. ler mais sobre os sintomas da menopausa no tratamento do cancro da mama aqui (inglês).

o tamoxifeno também não afecta a fertilidade (pode inclusive, estimula-la), e quem ainda não está na menopausa, pode engravidar - algo totalmente desaconselhado durante a terapia, devido ao risco de malformações fetais. ler mais sobre fertilidade e gravidez durante os tratamentos aqui (inglês)

2 ter o "termoestato desregulado" é uma forma engrassada de dizer que o hipotálamo, que entre muitas outras funções, controla a temperatura corporal, sofreu uma perturbação qualquer, provavelmente devido às flutuações nos níveis hormonais em circulação. aprofundar o tema aqui (inglês)
 
3 libertação miofascial (mio: músculo / fascial: fáscia (tecido conectivo) é o nome do tecido conectivo que envolve os os músculos) uma técnica de massagem utilizada em fisioterapia, que ajuda a relaxar os músculos contraídos. ler mais sobre libertação miofascial aqui (inglês)

Efeitos secundários do tamoxifeno

Setembro 18, 2019

já sabemos que o tamoxifeno é a droga de eleição para a hormonoterapia, e que os benefícios superam os riscos.. mas tem uns efeitos secundários um bocado merdosos. li muuuuuuito sobre isto, e aprendi que não existem duas experiências iguais. o catálogo pode ser vasto, mas cada organismo reage de forma diferente. umas pessoas são mais poupadas, outras não têm tanta sorte. 

btw, tive que dividir este post em dois, porque estava a ficar monstruoso (e mesmo assim, saiu enorme 😑 ). neste falo sobre os convidados indesejados que passaram a fazer parte da minha vida, e no próximo, como lido com eles. então,

ondas de calor (afrontamentos)

não creio que sejam tão intensas como algumas mulheres as descrevem, e têm o seu q.b. de interessante, porque sempre fui friorenta, e agora ando sempre acalorada. nunca um inverno foi tão fácil de suportar. já o verão.. tem havido dias complicados, em que pareço um peixe fora de água a tentar respirar, farto-me de suar, e fico tão mole que quase que caio pró lado.

portantos, se me ouvirem a perguntar "tá calor aqui ou sou só eu?" ao mesmo tempo que entra um gajo todo bom na sala, não é assédio sexual, tou só a tentar perceber se tou a ter um afrontamento lol

suores nocturnos 

chega a ser ridículo.. a sério que estou à espera da noite em que me afogo no meu próprio suor. ainda por cima, é pior durante o inverno...PQP, é o efeito secundário que mais me incomoda. e não vamos falar das vezes que acordo com a gata a lamber-me o suor... blargh!!

agora também ando sempre com sede. ainda estou para perceber se isto está relacionado com o suar muito, ou é outra coisa. só sei que ando a beber praí o dobro (ou mais) da água que bebia antes. e depois, chego a ter que me levantar duas vezes por noite, para ir ao wc. bah! 

perturbações do sono

os meus sonos nunca foram muito atinados, mas desde que comecei a tomar a pílula avariada, a coisa descarrilou ainda mais. as minhas insónias têm insónias. na maior parte dos dias não consigo adormecer antes das cinco da manhã. mas quando pego no sono a sério, durmo que nem uma ursa, e não consigo acordar. por causa da inconsistência nas horas que durmo, às vezes tenho umas pancadas de sono malucas durante a tarde.

fadiga

nada de significativo, e atribuo mais às perturbações no sono que outra coisa qualquer. mas não há-de ser só isso, porque noto que tenho menos energia, e quando faço esforços físicos demoro mais tempo a recuperar.

retenção de líquidos

oh yeah
.. e eu que nunca soube o que era essa merda..

alterações de peso

não está provado que o tamoxifeno provoca aumento de peso, mas porque pode causar retenção de líquidos, a balança pode subir... bom, só sei que meti 2kg, e tou a ver-me grega para despachá-los.

problemas de memória e dificuldades de concentração

a minha memória nunca foi grande coisa, agora ainda está mais pobrezinha. poderá ser culpa das perturbações no sono. ou então, não..

a concentração, ao início andou um bocado abananada, mas depois voltou ao que era. 

manifestações cutâneas

sinto que tenho a pele mais sensível. banho agora, só com água morna (o que não é mau, poupo da conta do gás lol). noto que ganhei uma certa intolerância à exposição solar, sinto a pele queimar com mais facilidade.

de vez em quando, assim do nada, sou acometida dumas coceiras malucas, que até dou saltos.

mas nem tudo é mau. porque a pele ficou mais seca, está com melhor aspecto, menos oleosa e mais macia.

dores de cabeça

não sou muito dada a dores de cabeça, mas notei um aumento de frequência, daquelas dores tipo, que não-fode-nem-deixa-foder. tão ali a pulsar, mas não justificam mandar um analgésico pró bucho. tou bastante desconfiada que se devem à tensão muscular, que, guess what? é um dos sintomas da menopausa. os músculos do pescoço, costas e ombros ficam mais tensos e rígidos.

perturbações no sistema genito-urinário

a "sul" também notei algumas alterações que não achei grande piada.. mas é capaz de ser um bocado TMI.. 

perturbações gastrointestinais

uma das primeiras coisas que notei quando comecei a terapia, foi que a minha rica tripa, tão certinha que era, ficou toda desregulada.. 

praí aos seis meses de estar a tomar a droga, comecei a ter problemas digestivos. comecei por notar a digestão a ficar cada vez mais preguiçosa. eventualmente a coisa escalou, e à terceira paragem de digestão sem razão aparente (com direito a espectáculo de dança contemporânea no chão do wc, a achar que ia quinar-me ali, e a terminar com a cabeça enfiada na sanita) no espaço de um mês, desconfiei logo que só podia ser o raio do tamoxifeno. interrompi a toma, e fui a correr aos médicos, até porque alguns dos efeitos podem necessitar de supervisão médica. oncologia, cardiologia e gastrenterologia, aqui vou eu!!

o médico de cardio foi impecável, não pareceu incomodado eu ter-me "enganado" na especialidade. a cena é que, se mete quebras de tensão e desmaios, eu começo logo a pensar que é um problema cardiovascular e entro em pânico (a minha família é dada a problemas neste departamento). o médico explicou-me que os sintomas que tenho quando estou prestes a vomitar são de síncope vasovagal, que é a activação inapropriada do nervo vago, que induz uma queda na pressão arterial e desacelera o coração, provocando uma redução temporária no fluxo de sangue e oxigénio ao cérebro. nada simpático, eh!? 

portanto, desmaios e quebras de tensão não estão associados com o coração. menos mal. mas porque eu tinha feito radioterapia e estava a fazer hormonoterapia, o médico quis-me fazer um ecocardiograma com doppler para certificar-se que estava tudo nos conformes. e estava.

a médica de gastro impecável foi. montes de dicas sobre alimentos e alimentação, medicação para tomar em SOS, mas vamos também fazer uma endoscopia a ver se está tudo ok. ora faça favor, desde que me botem a dormir, podem revirar-me as entranhas que eu não quero saber. tudo ok. mas ia desmaiando quando a enfermeira estava a meter o cateter, e magoou-me. eu prás enfermeiras, na maior das calmas, já com a voz arrastada e a fechar os olhos "não se admirem se eu desmaiar", e elas em pânico a articular a cama, para ficar inclinada e forçar o sangue à cabeça. bom, ao menos desta vez estava deitada muhahaha mas não cheguei a desmaiar.

a médica de oncologia não precisou de me prescrever nada porque eu já tinha tomado conta do assunto. concordou com a medicação de SOS, e pediu-me que tentasse jantar mais cedo, e caminhar um bocadinho depois do jantar. parar o tamoxifeno é que não podia ser. oh well...

ao fim de uma semana de pausa, voltei ao tamoxifeno. e sim, o estômago volta e meia arma-se em parvo, mas agora estou sempre prevenida. e se vomitar, vomito. caguei. há coisas piores.

há uma série de efeitos que felizmente ainda não se manifestaram. assim de repente, cãibras nas pernas, dores musculares, dores nas articulações, e alterações na visão. a ver se continuam à margem. outros, ainda não os consegui perceber,

alterações de humor e depressão

eu alterações de humor sempre tive lol não notei alterações. depressão é difícil dizer, porque estive a fazer medicação para a ansiedade, e a ansiedade trata-se com antidepressivos. a ver vamos.

enfraquecimento e/ou queda do cabelo

no ano passado andei uns tempos a achar que ia ficar careca, mas afinal era a queda sazonal que me ataca todos os anos, que vai desde o fim do verão até ao inicio do inverno. continua tão parvalhão como era antes, e parece-me que a velocidade de crescimento está normal. não me lembro se mais fino do que era, e não sei se tenho menos densidade capilar desde que comecei a medicação.

aumento da pilosidade corporal

disseram-me para esperar um aumento do pelâme, mas aconteceu quase oposto. notei sim que levam mais tempo a crescer, nas pernas quase que nem dou por eles, eu que sempre fui um bocado mulher das cavernas nesse aspecto.

diminuição de densidade óssea

apenas em mulheres em pré-menopausa, nas que já lá estão, parece que baixa o risco de osteoporose. quanto aos ossos, não sei, mas as unhas discordam. se já eram rijas antes, agora parece que tenho cornos na ponta dos dedos. só consigo cortá-las logo a seguir ao banho, quando ainda estão moles da água. e crescem. TÃO. RÁPIDO!

estimo que os ossos também estejam duros de roer. 

depois há aqueles estão a funcionar ao revés, 

diz que pode reduzir a libido, mas... não tem sido essa a minha experiência.. de todo lol

diz que pode aumentar o colesterol. coincidência ou não, pela primeira vez desde que faço análises ao sangue, tenho o colesterol dentro dos valores de referência, e não acima. e esta, hem? e não fiz alterações à alimentação.

sou um bocado obcecada com as coincidências entre os efeitos secundários.. tenho a sensação que uns puxam outros, e ando sempre à procura de ligações entre eles. quando o corpo está em desequilíbrio, é uma bola de neve. e com isto, vou alimentando das minhas listas de dúvidas para cravar aos médicos he he he

nos entretantos aprendi a conviver com eles, e diria até que os tolero relativamente bem. não são tão intensos como temia.. mas não vou mandar foguetes, que ainda faltam 4 anos disto...

O que funcionou para mim

Setembro 11, 2019

ter seguro de saúde com cobertura para doenças oncológicas
não tem uma cobertura astronómica, mas foi o suficiente para ter conseguido fazer tudo pelo privado. também tenho um seguro de vida especial para doenças graves da mulher, mas não foi preciso activá-lo.

a sério, se há coisa que não me vejo na vida, é não ter seguro de saúde.

ter tido acompanhamento psiquiátrico desde o início
falei nisso neste post, aniquilou-me a ansiedade por completo. notei alguma falta de memória durante este processo todo, que suspeito que possa ter sido PTSD daquela agitação toda.

ter tido imensa sorte com médicos que me calharam na rifa...
não escolhi nenhum, foram aparecendo, uns por referência de outros (ou da gestora e da enfermeira oncológica). o percurso profissional deles deixou-me tão segura, que nem valia a pena preocupar-me com segundas opiniões. 

...e com todo o pessoal médico envolvido
todas, mas todas as pessoas que de uma forma ou de outra interagiram comigo foram absolutamente fora de série. apesar de lidarem diariamente com uma doença de merda, com múltiplas formas de sofrimento e drama, nunca perdem o optimismo, a ternura, o sorriso caloroso, e o sentido de humor. ganhei-lhes um respeito tremendo, e agradeço-lhes por mim e por todos os outros. não existem elogios suficientes que honrem esta dedicação.

ter lido imenso sobre o tema 
os médicos não curtem nada que a gente se meta a ler cenas na internet, mas na minha opinião, educarmo-nos sobre a doença é meio caminho andado para lidarmos melhor com ela, e com tudo o que lhe diz respeito. claro que vamos ler coisas contraditórias, e coisas que não conseguimos fazer sentido, mas nada como tirarmos as dúvidas com os médicos que nos acompanham. 

infelizmente, na internet não existem muitas fontes em português, e o pouco que existe está muito espalhado e refundido. a nível internacional existem referências muuuuito boas, escritas em linguagem acessível, e em permanente revisão.

e também existem muuuuitas coisas incrivelmente técnicas, tipo estudos e ensaios clínicos, coisas de difícil interpretação para leigos (como eu). e claro, é sempre preciso ler os resultados com uma pitada de sal, ora porque podem ser tendenciosos, ou porque não foram feitos nas condições ideais, ora porque há interesses envolvidos. a regra dourada para se ler sobre doenças na internet é desenvolver sentido critico (e um faro à prova de charlatanice, que é o que existe mais).

ter mantido um registo dos efeitos secundários dos tratamentos
e continuo a mantê-lo. a memória pode ficar bastante afectada durante este processo todo, e quando nas consultas de seguimento, os médicos perguntam como temos passado, nem sempre nos lembramos de tudo. manter esse registo faz com que não escape nenhum detalhe, que às vezes pode ser muito importante. e quem sabe até, se a longo prazo não poderá ter alguma utilidade, nem se seja como controlo da nossa evolução durante o tratamento.

ter mantido uma atitude positiva
depois de ter recuperado do susto, levei o processo todo sempre com bastante optimismo e descontracção.

ter partilhado experiências
ter-me juntado a um fórum cheio de pessoas espectaculares, com a mesma, ou com diferentes tipos da doença, e em várias fases do tratamento, sempre disponíveis para dar uma palavra sincera a quem precisa. um caso raro de uma comunidade de entreajuda.

ter o meu homem
que foi absolutamente fenomenal a lidar com a crise. ele, que até ao momento do diagnóstico tava nas couves, com stresses físicos inexplicáveis, meteu a pausa nos problemas dele e orientou o barco durante a tempestade. acompanhou-me nas consultas mais criticas, fez as piadas mais parvas, orientou a minha família durante o meu internamento, serviu de enfermeiro, e teve uma paciência do outro mundo para todas as outras coisas.
eu, que julgava impossível alguém ser tão dedicado a outra pessoa, afinal estava enganada
 ♥

Final dos tratamentos

Setembro 04, 2019

com o fim das sessões de radioterapia, terminava o grosso do berbicacho que tinha começado em maio. 

no entanto, não tive a reacção que estava à espera. em vez de ter ficado eufórica por finalmente ter metido aquilo tudo para trás das costas, não foi bem uma sensação de alívio que senti.. foi mais de vazio.. ou nostalgia.. ou qualquer coisa pelo meio.. passei quatro meses de idas quase diárias ao hospital, numa roda viva de consultas de diferentes especialidades médicas, de exames e tratamentos marados, de estar rodeada das atenções de pessoas totalmente empenhadas em tratar-me da saúde.. e de repente, tudo aquilo tinha cessado. se não tive tempo de me adaptar à enxurrada de coisas que me entraram na vida a uma velocidade supersónica, também não tive tempo quando elas saíram quase à mesma velocidade.. e andei ali uns dias a sentir-me um bocado à deriva.

claro que ia continuar a ter consultas e exames, mas nada comparado àquela frequência frenética.

pelo fórum, fui tropeçando nalguns relatos de pessoas que descreviam a fase de pós-tratamentos em tons de vazio, abandono, preocupação, e até depressão. houve alguém que descreveu a coisa como ansiedade de separação, a mim fez-me bastante sentido. vai daí, conclui que era mais uma das muitas fases que estão associadas à experiência da doença. nada que umas férias não curassem!

nesta altura, ainda tinha as sequelas da biopsia e da cirurgia bastante pronunciadas. ao hematoma da primeira, juntou-se o hematoma gigante da segunda, e o resultado era medonho. tinha mais de metade da pele da mama tingida numa mistura foleira de cores, entre amarelos, verdes, e roxos. o cirurgião plástico tinha-me dito que o hematoma foi mais extenso devido à reconstrução com retalhos, pois houve muita mexidela lá dentro, e que ainda ia levar algum tempo até desaparecer. a sorte é que nesta altura, já nada destas merdas me dava a volta ao estômago lol

a elas, juntou-se o escaldão da radioterapia, que tal como um escaldão comum, estava a começar a escurecer a zona exposta à radiação. a pele iria demorar bastante tempo a recuperar do “bronzeado” da radiação. um ano depois, ainda cá está, juntamente com a colecção de sardas e o look david bowie. this too shall pass.

a cicatriz praticamente não se nota, ficou dissimulada junto ao contorno da aréola. serviço 5 estrelas, foi o que foi. em algumas zonas, ainda não recuperei totalmente a sensibilidade da pele. mas se não recuperar, não me é coisa que me incomode. 

restava-me sobreviver aos 5 anos de hormonoterapia.

detalhe curioso.. durante aqueles quatro meses, nenhum dos profissionais de saúde com que me cruzei neste processo todo, médicos, enfermeiros, técnicos, gestores, e até dentistas, usou a palavra "C". neoplasia.. carcinoma.. mas nunca a palavra "C". gostei disso. sempre detestei a palavra, e sempre me custou a usá-la. é feia. dá-me arrepios.. mas depois habituei-me.

Let's get grillin’ II

Agosto 19, 2019

depois de uma semana de "férias" forçadas da radioterapia, eis que sessões diárias retomaram. na fundação champalimaud.

ok.. aqui tenho que dar o braço a torcer. eu gosto muito do sítio, e das pessoas onde estava a fazer RT até então. mas.. ser tratada na fundação champalimaud, que tem instalações impecáveis, com equipamento de última geração, num ambiente futurista, quase sci-fi, e sem rabiscos no peito a manchar-me as blusas e a roupa da cama, foi muito, MUITO fixe. só tive pena que o pessoal lá não era dado à galhofa, o ambiente era mais sério e informal.

tive que repetir o planeamento, numa sala toda xpto, para ver se as coordenadas ainda mantinham, ou se precisava de fazer marcas novas. continuava tudo no sítio. siga!

o acelerador linear [AL] funcionava de uma forma um bocado diferente, e demorava uns minutos a mais, porque a máquina fazia sempre um TC para ver o posicionamento dos órgãos (que pelos vistos, de vez em quando movem-se) e afinar o feixe de radiação ao limite do possível, antes de cada sessão (é claro que eu pedi às técnicas para me explicarem tudinho). mais radiação, menos radiação, who cares, ninguém me ouviu queixar. muito, MUITO fixe.

depois, em vez de duas posições, fazia várias. no total, estava lá cerca de 10 minutos, mas só estava efectivamente a ser irradiada durante 2. ter aquela maquinorra colossal a rodar à minha volta, dia após dia, era uma coisa que não cessava de me fascinar.

praí no final da segunda semana de radiação no peito, usar soutien começou a tornar-se incómodo, por mais solto que o tivesse.. é que nem tive com meias-medidas, foi mesmo fuck dat shit, i’m going braless. ahhhhh a sensação de liberdade!!

o mês passou muito rápido. todas as tardes interrompia o trabalho por uma hora, e ia passear até algés, junto ao tejo, nas calmas. o percurso era praticamente a direito, e com pouco trânsito. o estacionamento da fundação fica bem a jeito da entrada do centro clínico, e a coisa fazia-se super bem. e o ambiente lá também é muito tranquilo, é um sítio muito agradável de se estar. quando fazia check-in davam-me um telemóvel, para me chamar quando chegasse a minha vez. lá não haviam batas descartáveis, todos os dias tinha uma bata em tecido à minha espera no vestiário, selada. cheguei a perguntar se tinha mesmo que vesti-la, pois só estava uns 30 segundos com ela em cima, se não podia simplesmente ir de t-shirt, mas não.. "é protocolo", disseram-me. pronto, não insisto mais.

"posso filmar uma sessão?" cravei, a dada altura. andava mortinha por fazer isso.

"claro que sim"

por acaso filmei duas, que a primeira ficou desenquadrada. editei o vídeo de 10 minutos para retirar todas as partes em que o AL estava parado, para ficar só a maquina a rodar à minha volta. é épico. estranhamente, só eu é que gosto de ver o vídeo : /

no final, recebi um relatório todo pipi, onde constam as quantidades de radiação que recebi em cada sessão, e o total da radiação que os órgãos vizinhos receberam, e mais uma porrada de dados que não sei interpretar.

os efeitos secundários que tive não foram nada de especial. o já esperado "escaldão" e a pele sensível, uma colecção de sardas nova na zona irradiada (também as ganho quando escaldo ao sol, nada de novo), inchaço (que se não fosse apenas numa mama, até seria bem vindo), e.. fiquei com a pele do mamilo descolorada.. mamas à david bowie, como apelidei o look novo (e que fez o técnico de RT descascar-se a rir).

aliás, as piadas saiam de chofre, sem pensar sequer. uma das melhores que fiz, quando após uma das primeiras sessões, uma técnica de RT estava a dar-me dicas sobre os cuidados que devia ter,

"...não se esqueça que não pode depilar a axila esquerda.. mas não se preocupe muito com isso, que o pêlo vai cair de forma permanente."

"a sério? quer dizer que isto é tipo depilação a laser?" respondi-lhe, com o ar mais clueless do mundo. a técnica tossiu-se toda, e eu parti-me a rir

“é um bocadinho mais agressivo que depilação a laser”, respondeu-me, a rir, depois de ter reparado que eu tava no gozo.

também perguntei se podia usar protector solar, para evitar a queimadura. mas às tantas, as piadas já não pegavam, que o pessoal já sabia que eu tava no gozo, bah!

o meu homem também saiu-se com uma genial, bué nerd, "tanta radiação, e ainda não te cresceu uma terceira mama!" ri-me tanto lol

o sativa m-tex foi uma excelente escolha. usei-o religiosamente até novembro (2 meses após a RT), e a pele aguentou-se muitissimo bem. um ano depois, ainda tenho um tom de pele ligeiramente mais escuro na zona irradiada, tenho alguma penugem de volta, mas ainda nada de pêlos foleiros,  e o vibe david bowie permanece, embora mais discreto.

mais umas semanas e já posso ir prá praia como vim ao mundo YAY!!

Let's get grillin’ I

Agosto 12, 2019

quando regressei de férias, o seguro ainda não tinha dado luz verde porque o pedido seguiu com uma informação em falta, e teve que ser re-submetido. e assim se passou mais uma semana. estava bastante satisfeita que o verão tinha tirado férias aqui do pedaço, o que tornava aquela provação mais fácil de engolir. até que o cabrão se lembrou de aparecer...

...e chegou todo de uma só vez!

ah poizé, mas tu agora não podes apanhar sol filha, por isso esquece lá a praia. NÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOO... que castigo tão cruel, que piada tão podre, que mal fiz eu ao universo para ficar privada da altura do ano que mais gosto, PUTA QUE PARIUUUUUU!!!

21 sessões, todos os dias da semana, à mesma hora, durante o mês de agosto praticamente todo.

entretanto, comecei com a rotina dos hidratação. é recomendado (pelos fabricantes dos cremes lol) começarmos a aplicar creme hidratante uma semana ou duas antes do inicio da radioterapia. estava indecisa entre dois, o ureadin rx rd e o sativa m-tex, ambos específicos para pele irradiada. então comprei os dois e fui usando alternadamente, até chegar à conclusão que o sativa tava 10 a 5 no ureadin, e passei a usar apenas o sativa, que tinha que encomendar na farmácia sempre que terminava uma embalagem. muito baratinho, este creme. vou acreditar que faz milagres. três vezes ao dia. de manhã, imediatamente a seguir à sessão de radioterapia, e ao deitar.

na primeira sessão, a enfermeira deu-me uma bata descartável, com indicação para trazê-la todos os dias, para evitar desperdício. concordo muito com aquela medida. por mim, nem bata usava.. mas ninguém me queria meio desnuda a atravessar o corredor entre os vestiários e o bunker, que são tipo, 5 metros. bah!

a primeira sessão foi interessante. os meus olhinhos trataram de imprimir no cérebro todos os detalhes daquela sala refundida, protegida por uma porta estupidamente grossa. para além do acelerador linear [AL], que era um bocado diferente daqueles que tinha andado a ver em fotos e vídeos, haviam monitores, e câmeras, e maquinetas que emitam lasers pregadas ao tecto. em frente ao AL, e também pregado ao tecto, estava uma bisarma que apelidei de "máquina da CC" (capsule corporation) por causa o logotipo, que projectava uns gráficos muita marados no meu tórax. pelo que percebi, é um engenho que serve para parar a radiação imediatamente, caso o paciente se mexa.

foram 3 pessoas para dentro da sala comigo. fizeram-me uns rabiscos no peito, ajustaram aquela cangalhada toda ao milímetro, confirmaram tudo e um par de botas. e depois, uma das pessoas diz-me,

"agora vamos lá fora fazer umas contas. é preciso que não se mexa" e eu não me mexi. entretanto aquela história começa a rodar à minha volta, para um lado e para o outro, a ranger por todos os lados, parecia que se ia escangalhar toda em cima de mim. praí 3 minutos depois, aquela tropa toda regressa ao bunker.

“já está despachada!”

"já??" 

oi.. tão não iam só fazer contas e assim? tão levei logo uma dose de radiação, assim, a frio, e nem dei por nada? não pode! mas sim, aparentemente aquilo é muito rápido, e ainda passou ser mais rápido, porque na primeira sessão perdem algum tempo com ajustes e a rabiscar a pele, e nas seguintes não.

uma aplicação generosa de creme assim que chegava ao vestiário e tava feito. como sou despachada, nem 10 minutos perdia lá dentro, depois de ser chamada. a parte chata era ter as sessões durante a tarde. tinha que me meter no trânsito para ir do trabalho até ao hospital, e voltar novamente.

entretanto no final da primeira semana aconteceu um contratempo, e os tratamentos no hospital foram suspensos. mas como a malta que faz RT não pode interromper o tratamento, fomos reencaminhados para outros centros.

Radioterapia

Agosto 09, 2019

antes de fazer o relato da minha experiência na tostadeira humana, deixem-me falar um bocadinho sobre esta terapia, que é utilizada há mais de 100 anos para tratar tumores. então,

o que é a radioterapia?

é um tratamento local, que utiliza radiação para danificar as células cancerígenas.

divide-se em dois tipos: radioterapia externa e braquiterapia (radioterapia interna). cerca de metade dos doentes oncológicos são submetidos a este tratamento. uns como terapia adjuvante, outros como terapia única, outros como terapia paliativa. em algumas situações, a radioterapia é o único tratamento necessário.

na radioterapia externa, é utilizada radiação ionizante (tipo raios-x on steroids) gerada por uma máquina gigante chamada acelerador linear. é administrada a uma determinada distância, com o doente imobilizado, para evitar quaisquer movimentos involuntários que afectem a precisão do feixe. na braquiterapia, é colocada uma fonte radioactiva no interior do corpo, no local do tumor.

a radioterapia externa sujeita o paciente a uma rotina um bocado aborrecida, uma vez que a dose total de radiação é dividida em fracções, para ser administrada diariamente, ao longo de algumas semanas.

a quantidade de radiação é medida em grays (Gy), e a varia consoante a extensão da doença, as características do tumor, e o estado geral do doente. existem várias técnicas para aplicá-la. as mais avançadas, que abordam o tumor com maior precisão, são: 3D-CRT1, IMRT2, V-MAT3, IGRT4, SBRT5, IORT6 e gating respiratório7. a técnica a utilizar varia de acordo com cada caso clínico, e é decidida durante o plano de tratamento.

o serviço de radioterapia costuma ficar numa zona refundida do edifício. a sala onde a está o acelerador linear é conhecida por bunker, e tem um nível de protecção insano. a equipa deste serviço é composta por médicos especialistas em radioterapia, físicos médicos, dosimetristas, técnicos de radioterapia, e pessoal de enfermagem.

como é que a radioterapia funciona?

a radiação vai provocar pequenas quebras no ADN das células. as células cancerígenas crescem e dividem-se mais rapidamente que as células saudáveis, mas não têm capacidade de se regenerar. e quando são expostas à radiação, não conseguem reparar os estragos, acabando por morrer.

as células saudáveis que também são afectadas pela radiação, fazem o que é suposto: regeneram-se, e continuam o ciclo.

[a partir deste ponto, falo especificamente sobre radioterapia externa no cancro da mama]

porque é que preciso de fazer radioterapia?

a radioterapia serve para eliminar todas células cancerígenas que possam ter ficado para trás durante a cirurgia, aumentando substancialmente a sobrevida das doentes.

todas as doentes submetidas a cirurgia conservadora devem fazer radioterapia, devido ao risco de recidiva local, que pode acontecer mesmo que o tumor tenha sido totalmente removido e com margens limpas. as pacientes submetidas a mastectomia, poderão ter que fazer este tratamento, devido à possível invasão da pele, músculo, e gânglios linfáticos.

quando é que tenho que fazer este tratamento?

geralmente, inicia-se entre 4 a 6 semanas após a cirurgia.

fazer radioterapia dói?

não, se sente absolutamente nada. vá.. quanto muito, podemos ter uma ou outra sensação de picada, nada de especial mesmo. custa mais manter-nos imóveis na posição em que estamos deitadas, do que a parte da irradiação em si.

como é administrada?

estamos deitadas em cima de uma mesa, desnudas da cintura para cima, (in)comodamente instaladas numa estrutura chamada imobilizador, que mantém as costas ligeiramente inclinadas, os braços apoiados por cima da cabeça, e os joelhos levantados. entretanto a mesa move-se até à posição definida no plano de tratamento.

de seguida, os terapeutas ajustam a nossa posição ao milímetro. existem vários lasers projectados sobre nós, e os pontinhos que temos tatuados no tórax têm que estar muito bem alinhados com eles. esta parte costuma demorar mais tempo que a irradiação em si, é preciso uma certa paciência.

terminado o posicionamento, ficamos sozinhas na sala, e momentos depois, o acelerador linear move-se ao nosso redor. consoante a técnica que está a ser utilizada, pode demorar mais ou menos tempo, mas normalmente demora entre 5 a 10 minutos. (se não estivermos a fazer radioterapia com a técnica de inspiração máxima sustentada) podemos respirar normalmente, mas não podemos fazer nenhum movimento. mas se por acaso acontecer algum movimento involuntário, worry not, que existe um processo automático que interrompe o feixe de radiação imediatamente .

esta rotina repete-se todos os dias da semana, durante cerca de seis semanas.

vou ficar radioactiva após a sessão? 

não, porque a fonte de radiação não está no nosso corpo.

mas.. se radiação é cancerígena, o tratamento não me vai provocar cancro?

a radioterapia pode aumentar ligeiramente o risco de se desenvolver outro cancro, é um dos seus efeitos secundários. é um factor que pesa na avaliação de cada caso clínico, mas se os médicos recomendam este tratamento para o nosso caso, é porque o benefício supera os riscos.

que efeitos secundários posso esperar?

à medida que o tratamento avança, podemos começar a notar algumas alterações, na pele e na mama. a maioria resolve-se nas semanas seguintes após o tratamento terminar.

cerca de duas semanas após o inicio dos tratamentos, a pele na zona irradiada pode começar a ficar avermelhada, com aspecto de queimadura solar. ao mesmo tempo fica sensível e seca, e pode dar comichão. mais para a frente, podem começar a surgir bolhas ou a pele começar a descamar. o pêlo cai e deixa de crescer. é provável que a pele escureça na zona irradiada. 

a mama pode sofrer algumas alterações físicas. os danos causados pela radiação nos vasos linfáticos pode dificultar a circulação linfática e provocar acumulação de liquido nos tecidos (linfedema), e a mama incha. pode ganhar firmeza, porque o tecido pode endurecer e perder alguma elasticidade (fibrose). e porque a radiação pode fazer com que o tecido mamário se contraia, pode ficar mais pequena.

se tivemos feito radiação nos gânglios axiliares, podemos desenvolver linfedema no braço, que pode limitar o movimento das articulações.

fadiga é um efeito secundário que costuma estar associado, mas é mais devido à penosa rotina, do que o tratamento em si.

a longo termo podem surgir problemas nos pulmões, coração, ossos, nervos, ou até cancro. importa mencionar que as técnicas utilizadas actualmente limitam bastante a exposição de radiação dos orgãos vizinhos. o resto, é uma questão de mantermos vigilância activa.

[ nota: se alguém entendido na matéria ter tropeçado nalguma informação errada, pedia o enorme favor de me corrigir. thanks in advance! ]


 

1 3D-CRT (radioterapia conformacional 3D), esta técnica molda o feixe de radiação à forma do tumor, para fornecer uma distribuição de dose com a forma do tumor, poupando os tecidos circundantes.

2 IMRT (radioterapia de intensidade modulada), é uma técnica avançada de 3D-CRT, em que o feixe de radiação é dividido em pequenos segmentos com intensidades variáveis, poupando ainda mais tecido em redor. pode necessitar de planeamento adicional no inicio de cada sessão, que pode tornar os tratamentos mais demorados.

3 VMAT, arcoterapia volumétrica modulada, é uma técnica avançada de IMRT, que para além de distribuir a dose com o formato do tumor, e utilizar múltiplos feixes com intensidades variáveis, mantém uma rotação contínua (arco) à volta do doente, diminuindo a duração do tratamento.

4 IGRT (radioterapia de imagem guiada), outra técnica avançada de 3D-CRT, que recolhe imagens antes do início de cada dose de radiação, para o técnico verificar a posição dos orgãos e do tumor, e se necessário fazer ajustes à trajectória do feixe, para aumentar a precisão.

5 SBRT (radioterapia estereotáxica), é uma técnica utilizada no tratamento de pequenos tumores, geralmente em locais pouco acessíveis. a dose total é menos fraccionada, e o doente recebe uma dose mais concentrada de radiação em cada sessão.

6 IORT (radioterapia intra-operatória), técnica que consiste numa dose única e elevada de radiação, administrada durante a cirurgia.

7 gating respiratório, técnica em que a radiação apenas é emitida durante uma fase do ciclo respiratório do doente, quando o tumor se encontra na posição pretendida para a irradiação.

'Le me

tem idade suficiente para ter juízo, embora nem sempre pareça. algarvia desertora, plantou-se algures na capital, e vive há uma eternidade com um gajo que conheceu pelo mIRC.

no início da vida adulta foi possuída pelo espírito da internet e entregou-lhe o corpo a alma de mão beijada. é geek até à raiz do último cabelo e orgulha-se disso.

offline gosta muito de passear por aí, tirar fotografias, ver séries e filmes, e (sempre que a preguiça não a impede) gosta praticar exercício físico.

mantém uma pequena bucket list de coisas que gostava de fazer nos entretantos.

'Le liwl

era uma vez um blog cor-de-rosa que nasceu na manhã de 16 de janeiro, no longínquo ano de 2003, numa altura em que os blogs eram apenas registos pessoais, sem pretensões de coisa alguma. e assim se tem mantido.

muitas são as fases pelas quais tem passado, ao sabor dos humores da sua autora. para os mais curiosos, aqui ficam screenshots das versões anteriores:
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